sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Poesia madura


Ela procurou seu amor quando criança
Ouviu “Eu te amo muito, querida!”
Saiu correndo toda aflita e sem graça
Sem deixar recado ou pegada

Inconformada, foi buscar novas formas
Queria romper a imagem de perfeitinha
Amadurecer e perder medidas
Encontrar-se nos mais variados sentidos
Perder-se nos sentidos mais virados
Com corpo e conteúdo para se ver conformada
Apesar da estrutura velha demais para seus inventos
Apesar dos volumes métricos que sua música soa
Sempre isso a pesar...
Presa às suas linhas, soltou o fio da meada

Pular corda
Gerar eletricidade
Ligar a luz das estrelas com a divisão dos átomos
Ler a iluminada mão cruzando com a vida, a mente e o amor
Voltou ao verso inicial

Ela procurou seu amor quando criança
Ouviu “Você é foda, senhorita!”
Pediu perdão pela palavra
O vermelho na língua

Então, o poeta intitula
Ela é Poesia madura
Sustenta a gravidade
Flutuante deste poema.

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Pólen mágico


Quero só seu bem
Que mal isso tem?
Você, indefesa
Pequena princesa
Saberá lutar?
Sem se machucar?
No mundo tem seres
Nada encantadores.

Eu quero voar
Volte minhas asas
Por favor, fada
O mundo pequeno
Quer novo lugar
As mudas donzelas
São tão enfadadas
Quero já outro reino.

Pegue o pólen mágico
Na Terra se lance
Isto é poder
Vê se voa, vai, vai!
Em todo céu branco
Sim, arcoire-se!
Da cor que quiser
Ame mais e mais!

Marcando o silêncio
O tempo mudado
Princesa cantou
A felicidade
O próprio feitiço
Por si colocado
Rainha desvirou
Virou juventude.

sábado, 25 de dezembro de 2010

Amor indefinível


Eu procurei o significado
Um dicionário desconheceu o sentido

Tentei descrever narrativamente minha emoção
Entrelinhas bancam as subentendidas dessa expressão

Amor é difícil de compreender com o verbo amar
Mas tu, naturalmente, ensina-me a verbalizar
Os inícios que me complementam com teu olhar.



Ps.: Poema feito para você, amor, meu amado namorado! Sua companhia é, imensuravelmente, um presente valioso que a vida me oferece! Beijos, Luiz! =)

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Retrato-falado


Seguro seu existir em cada mão
Com garra, elas se abraçam
Cruzam-se na Estação da Luz
Choram meio-dia em olhos nus

Ouço o que acende seu silêncio
Velado pelos sons do círio
Indecifrável pelo termo da palavra no ar
Não teremos tempo para encontrar

Quando um dia for Sol completo
Riremos de tudo isso, eu suspeito
O retrato-falado me diz que é a sua face
Desconheço você, a memória apagou-se.




x X x X x
Complemento por trás do suplemento de hoje: Eis parte do que me deu inspiração para continuar os rabiscos existentes previamente no caderno.

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Cidadão indigente factual


Noite de quinta-feira. Céu parcialmente nublado. Sem risco de precipitações. Ora aparecia a Lua, ora desaparecia. Ora surgia a loira, ora sumia. Os dois irmãos e companheiros, ainda bem lúcidos, brindavam com boemia o fato central das boas novas.

Antônio Augusto, jornalista jovem e audacioso, ainda não estava acreditando: 24 anos e 11 meses, sua idade naquele tempo, para chegar ao cargo de editor. Tudo bem, o jornal não era o mais famoso do país, mas circulava a cada dia em todos os setores da sociedade brasileira para ser o número 1 em vendagem. Venda e qualidade nem sempre são pesos da mesma moeda, depende muito da visão e ambição do empreendedor. Por hora, o comunicador comemorava a promoção de chopp, apesar de não estar no ponto ideal de temperatura.

Cruzou a rua, carregando sua arte de latinhas, alguns diriam lixo, outros de sustentabilidade. Luxo, palavra esdrúxula. O homem de veste simples, o rosto marcado pelas agruras da cidade sem territoriedade, fazia do chão apropriação temporal dos pés nômades em pleno século XXI.

O cidadão, se é que poderia chamá-lo assim, dirigia-se sorridente entre as mesas, vendendo suas obras, vivendo entre esmolas. Chegou à mesa dos festivos irmãos, pelo visto, de potenciais clientes. Dinheiro os dois mostravam que tinham para gastar com bebida em plena quinta-feira.

Fui com a cara desse indigente, o jornalista assim interpretava o sujeito em pé a sua frente. Tentou pechinchar o produto, achou divertido o cinzeiro feito de lata de refrigerante sabor coca. E quando mais barganhava, outros valores começavam a surgir. Seus olhos vislumbravam alguns possíveis prêmios de jornalismo por meio daquele personagem marginalizado. O mundo paga e consome bad news.

Já instalado na mesa, o cidadão das ruas se sentia lisonjeado com tamanha oferta de atenção cedida à sua simplória pessoa. Antônio Augusto anotava na mente a riqueza de experiências daquele pobre senhor. Ouvia suas origens, seus destinos e desatinos. Soltava algumas palavras em inglês, cantava em espanhol hermoso.

O cinzeiro, minutos depois, foi presenteado ao pechincheiro para surpresa do mesmo. Como esse homem poderia se abdicar do pouco que tem com tanta alegria? Não lhe entrava na cabeça o desapego material desse cidadão. É loucura demais, tenho que questioná-lo o porquê.

– Ei, moço! Eu gostei do cinzeiro, mas eu quero pagar por ele. Por que você vai me dá-lo se precisa de dinheiro para sobreviver?

– Ah, dinheiro é o de menos, amigo! Latinha se vê aos montes nas ruas, dá para catar fácil. Até tenho o suficiente para pagar minha caninha. Eu não preciso mais do que Deus me deu para contar meus causos para quem quiser escutar e tocar a vida. O bom já nasce pronto.

O jornalista, às 9 e 18 da noite, em uma das mesas do bar frequentado por personalidades intelectualizadas, acadêmicos pós-modernos, pseudos cults em geral, ficou impressionado com a sabedoria desprendida por aquele indivíduo de sorriso fácil, apesar das circunstâncias. Ia de encontro, de encontro mesmo, tipo ônibus que colide com muro de escola e deixa 6 crianças mortas, com toda as suas leituras de mundo adquiridas pelos seus 24 anos e 11 meses. Aquele cidadão deixava insustentáveis as ideias difundidas por Sartre. Onde está o tornar-se a ser? Não existia o tornar-se, aquele mestre da atualidade sem nome, inominável, era o próprio tornado, e contraditoriamente, sem fúria.

Antônio se sentiu impotente. Estendeu a mão para segurar o presente do artista urbano. Para não perder a compostura, com humildade e modesta atitude, o rapaz ofereceu, em troca, uma caipirinha por sua conta. O senhor aceitou de bom grado para brinde de todos.

Anos se passaram. O editor nunca mais vira o homem que cruzou a rua, carregando sua arte de latinhas. Na mesa de redação, o cinzeiro jamais usado. A história nunca apagada pela periodicidade dos fatos.

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

dado sino dada sina dada

sina goga gagá van gogh

assina guga lady gaga

o valor de uma arte


não é a medalha

dada da humana vaidade

onde algum vencedor

cria ao dobrar o sino sobre si

se for o amor por ti

é vão da navalha

assassina a humanidade

assina redutor

a sina status e só esse

(sim) (sim) (sim)



Imagem: Barão Owl (aliado do Jiraiya, o Incrível Ninja)

x X x X x
Não sabe quem é o Barão Owl ainda??? O ninja-cristão-cruzado-templário-bolado com cara de sino?

Então, veja as imagens filmadas por esta câmera escondida que mostra uma conversa informal dele com o sábio mestre ninja Tetsuzan (interpretado por um ninja de verdade considerado um dos maiores mestres ninjas do mundo e médico neurologista [já não bastasse ser um mestre ninja, o veinho é médico neurologista... cara f*********] Masaaki Hatsumi). São de arrepiar!!!!

http://www.youtube.com/watch?v=U7lGaAdVT3s

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Primavera à flor da pele


“Não busque a felicidade fora, mas sim dentro de você,
caso contrário nunca a encontrará.”
Epiteto

A janela aberta moldurando o jardim para enfeite do concreto cercado de muros. Os jornais anunciavam a primavera. Divulgavam a criação de flores transgênicas mais perfumadas, mais suaves ao toque, mais coloridas e menos efêmeras. O anúncio noticioso deixou João inspirado a consumir ainda mais a produção dessa estação mais imaginária do que sazonal.

Percebida uma leve mudança no tempo, João aparentava não estar tão fechado assim, Dália puxou assunto com o colega de trabalho. Fazer as horas correrem mais rápido. Conhecer o desconhecido, seu vizinho, mesmo quarteirão e rua, há mais de uma década. Sentia-se um pouco antiga por ter pensado isso, apesar de não ter trincado, melhor dizendo, não ter ainda 30 anos de idade.

- E aí, João? Tudo bom?

- Olá, Dália. Na mesma. A primavera começou, mas nem sei por que eu estou falando isso com você.

Um sorriso exalava-se suavemente da boca de João. Seria sinal de timidez? Quem se importa, o importante para Dália era adubar o assunto e ver o que iria florescer depois. Perder tempo, sem problema, alguns minutos tinham que ser mortos para o cumprimento das cinco horas diárias de serviço. O contracheque pagava o equivalente a seis.

- Huuum... O que tem a primavera? É uma estação linda, né? Momento de amor, dos enamorados...

Dália esboçava uma expressão sonhadora, estava pensando no noivo. Brilho forte nos olhos, algo lindo de se ver.

- Acho que primavera é primavera e nada demais. Amor é sentimento fingido pela realidade humana. Todos sabem disso, mas preferem se iludir.

- Vai ver você tem fé e não quer acreditar que a tenha para nunca mais amar de novo. Já ouvi falar sobre isso não sei aonde. Normal.

Anormal para João. Mas faltava ele explicar o quanto sentia a solidão abraçá-lo dia e noite. Um inverno de espera longa, longa demais, eterna. A rosa esmagada por passes de tango. Faz parte da dança. Suar pelos poros em vez dos olhos. Regras sóbrias de conduta de um dançarino técnico, sem paixão.

- É, Dália, no fim tudo passa! Inclusive nosso expediente. Até amanhã!

- Até amanhã, João!

Por isso, Yasmim mudou-se do bairro... Deve ser chato demais ter que suportar esse ânimo opaco e pessimista do João. Não há casamento que sobreviva, mas ele já tinha que ter superado há anos esse ocorrido. Ficar cultivando as flores da ex-esposa para sonhar com o aroma dela pela casa. A felicidade depositada num passado murcho... Momentaneamente, os pensamentos de Dália foram podados. Ela percebeu que ainda não tinha saído do escritório.


Imagem: Delicate Duo - Brandon Hoover

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Gosto (uni)versalizado


Gostaria de abrir as verdades atomizantes
Escancaradas dos meus olhos conscientes
Gostaria de ter gostado de você antes...

Antes dos mapas astrais ficarem prontos
De ganhar a sorte por expandir os pontos
De Sol e Lua eclipsarem hits universais juntos

Olhe, que coisa engraçada!
A retrospectiva sendo devorada
Buraco-negro, vida passada

Resta a hipótese de vida
Que depois de passada
Passa a ser apenas uma ida

Certas chances, uma a cada cem, aparecem
Certas de que suas proclamações independem
Do tempo e espaço marcados para acontecerem

A lógica nem vai saber ou entender isso, com razão
A racionalidade positiva não abarca toda a criação
Sensação pressentida, por acaso, pela bela intuição

Sinta a partícula de luz em expansão, (sabo)rosa
Cada dia, um sabor particular de surpresa
A se apreciar com todos os sentidos, poesia

Como gosto de você!

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Sol na cabeça do poeta


Cômica a visão de certas pessoas. Nada parece simplesmente um Sol na cabeça do poeta. A intérprete Elis Regina evidenciou isso, como se saísse de seu âmago, ao cantar “O trem azul”. Lá pode conter a lembrança brilhante que aquece o coração de quem ama. O dia está nublado? Não importa, astro rei é modo de dizer, sentido figurado.

Enquanto alguns estavam amando a manhã amena, ainda bem que não entraram nas profundas cavernas mentais de Heitor. Praguejando a sorte, querendo a morte, fazendo outras rimas que combinassem com a mania de grandeza de sua dor. Tudo porque um outro poema, até bonito, fora dado de presente a Jamile.

“Mísero papel, por que você não carbonizou minha paixão depois de eu inscrevê-la com carvão em seu dorso branco, depois de tanto whisky?”

Mais um fingimento que não deveria ser levado ao pé da letra. Mas tarde demais para chorar pelas palavras dadas em meio a rosas. Por enviar o poema, Jamile, inspiração poética autodeclarada, desfrutava visibilidade cult numa revista cultural acadêmica. O poeta preferiria cair no anonimato em vez de ver o escrito publicado e os respectivos créditos de autoria levar seu nome.

Quantas mulheres reinvidicariam, por direito, o título de musa? Nem Heitor saberia contabilizar com precisão quantas moças ele presenteou, sem pudor, a mesma cópia da obra maestra. Utilizou seu direito autoral como bem entendeu, afinal, todas elas transmitiram luz à vida do poeta. Quando (se) o dia D surgir, as explicações disso, para Jamile, vão levar muitos sóis.

terça-feira, 16 de novembro de 2010

1 min. de mim


Irônico. A melhor pessoa para descrever quem eu sou, não sou eu. Discrições à parte, definições são insuficientes para o que eu possa ser/ter/parecer/emanar. Várias facetas e nem todas visíveis. Natural, porque muitas delas são uma surpresa até para mim... rs

A arte é a melhor brincadeira onde harmonizo o que existe em formas, cores, tons, sons, essência. O que não existe, a gente inventa! Se eu fizesse somente o dito útil, eu não veria lucros imateriais e nem ouviria a imaginação ganhando asas. Por isso, não sou de seguir linhas previsíveis. Faço caras, desfaço faces. Sou (im)paciente, dependendo de que forma o hospital esteja em cena. Amo pingentes com simbologias místicas. Ver além do que as coisas parecem ser é fascinante quando um mistério desvendado ainda assim transparecer profundo. O sonho pode ser real quando despertamos da realidade. É questão de percepção e sensibilidade. Sinto-me mais artista para viver.

Através da montagem, de forma fragmentada, surge uma representação de partes de um corpo simbólico. Deva ser o meu, por suposto... E, mesmo assim, em partes.

Eis, então, o meu mais novo vídeo: 1 min. de mim. Qualquer dúvida, ficarei feliz em saber a resposta. =)

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Quando a água chorou




Por seu estado, a água se molhava
Sem convite, infiltrava no rock’n’roll
Em assuntos insolúveis, se precipitava
Evaporava se laborasse sob o Sol

E o que fez a água gelar?
Quando vinho a ser vinha
Chorou por mudar de lar
Ficou rubra de vergonha.

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Gênio genioso


A energia ligada àquela residência
A lâmpada trabalha por resistência
De um gênio que, lá dentro, produz luz
E terceiriza seus três serviços plus

- Desejo é burocratizado
- O permitido tem restrição
Para alegrar a aflição
- O antes bom a ser evitado

Poucos se importam com os danos
Estrias são tatuagens dos anos
Dia ou noite a casa, ao chão, desforma
O gênio pagou as contas da reforma?

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Va(l)idade Vencida


– É melhor deixar as coisas como estão... Eu sei, não sou a melhor pessoa para falar sobre isso. Reconheço meus defeitos: compulsiva por sapatos e um pouco antidemocrática quando estou sem paciência. E não, não fale nada, não quero saber sobre sua opinião do que tenho para lhe jogar na cara!

– Mas, chuchu, o que fiz para você ficar assim?

– Fique calado! Você interrompeu minha linha de raciocínio! Ai, onde eu estava? Ah, é! Sabe, o que eu, Estefânia, descobri? Que não dá para conviver com alguém que só tem atenção para si mesmo! Você pensou que eu não sabia do por que começamos isso tudo, essa relação unilateral? Os seus amigos fofoqueiros são duplamente mais meus amigos se o assunto envolve o mal-feito.

Rogério estava sem eira nem beira com a situação que acabara de surgir. Pra onde fugir? A personalidade que é presença nas colunas sociais, sites de evento e afins, o solteirão mais cobiçado do planalto central, como se fez ser reconhecido na mídia brasileira, passando por isso agora. Tudo por culpa de um rabo de saia! A culpa só podia ser de Samara, que era doida para amarrar o coração dele. “Será que aquela coroa fez alguma declaração de amor para mim na TV?”, o protótipo de narciso pensava.

– Começamos nosso relacionamento naquela ilha que de tão linda parecia surreal! Fundo romântico bem produzido do reality show que protagonizei, correto? Apesar de que odiei ter usado aquela blusa verde de super mau gosto no último dia de gravação. Eu parecia um abacate estragado! Sacanagem! Porém, quem mandou assinar aquele compromisso de responsabilidade... E o resultado mais importante para mim foi você ser a vencedora dentre as milhares de inscritas que me disputavam. Só que isso não é novidade para ninguém. O que você sabe que eu não sei? – indagou Rogério.

Os olhos de Estefânia pediam um balde de água fria de tão fumegantes se apresentavam. Sinalizavam como um pisca-pisca: Perigo! Perigo! Momento de pausa: respiração profunda. Assim, ela apagou todo o sentimento de incredulidade e raiva oculta convertendo-o em uma fria paz.

– Pois é, volte ao seu antigo título de mister solteirão do pedaço. Estou farta de ter aguentando tanto tempo o seu ego ocupando todo o espaço da relação. Você ama demais a si mesmo para dividir esse amor com outro alguém. Um jogo promocional de sua imagem decadente foi esse programa da “Walt Disney” que participamos. Eu não sei se você sabe, mas antes de você, sou mais eu.

Estefânia desligou o telefonema. Rogério ficou do outro lado da linha refletindo onde seu sex appeal bambeou para não ter conquistado aquela mulher. E a cláusula do contrato mostraria que já havia sido cumprida a data mínima de união prevista para a vitoriosa poder receber o cachê restante do game show.

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Desejo de mortal


Preso em sonhos de libertação
As presas agarradas ao tempo
Sete selos selados pelo templo
Isto vai, isso sai e tudo o mais
Perto ou do Sol ou do núcleo vital
Ordens da diretoria da Igreja
E é o meu espírito que deseja?
Então, vai, vai lá pegá-lo!
Ele solto do abate não por sorte
Sirva para uma Consciência ideal!
Sirva-se, é o néctar essencial
O espiritual toma o material
Eis este o desejo de mortal
A carne machuca a dentição.



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A inspiração para compartilhar esse vídeo foi após o poema.
Segue o videoclipe da música Bliss da banda britânica Muse.
http://www.youtube.com/watch?v=eMqsWc8muj8&ob=av2e

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Oração imperceptível


Uma folha branca. A neve a surgir, mostrando algo que continuaria sendo uma paisagem. Em outra cor. Ele disfarçava a palidez do seu rosto ficando, irremediavelmente, com frio.

O inverno começando. Ryan preparou o instantâneo leite com cereais. Branco, gelado e deliciosamente nutritivo. Sabor de nada, porque nem o paladar queria dar o ar da graça numa hora dessas. Então, o que restava era respirar fundo e engolir com tudo os flocos molhados e a manhã de domingo.

Vinha, pela frente, uma bolacha pequena de wafer, em formato redondo e sem recheio nenhum, a hóstia com vinho tinto. Antes ouviu o quanto o inferno é horrível, quente, insuportável. Quase o clima de Goiânia em setembro. Por morar em trópicos não-tropicais, Ryan não saberia. E, para completar, o habitat de corrupção e imoralidade humana era descrito assim: um lugar cheio de prazeres sensoriais e que por ser tão desejável ao homem, ser o condenável. Mas, com os desejos controlados, o mortal politicamente correto poderia se permitir o sonho do eterno paraíso.

Aquele senhor gesticulador e chamador de atenção, com oratória cheia de julgamentos ácidos, demonstrava a dor que a humanidade iria enfrentar se persistisse no erro de uma vida errante. Se alguém é o crítico, é porque se supõe que ele saiba do que está falando.

Ryan olhava para fora da janela centenária. Várias folhas iam sendo pintadas de branco. A neve caia nas árvores. Tranquila e branda. Dava para sentir um sorriso. Oração imperceptível aos sentidos humanos. Quando o tinteiro permanece vazio, a pena descansa.


Imagem por Wilson Bentley


X x X x X


Não costumo mostrar minhas inpirações, mas acho que esse vídeo mostra um pouco do que quis transmitir no final do texto e não (des)escrevi.

http://www.youtube.com/watch?v=B7oZYznHulU&feature=related

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Armação da arte


Venha o corte neste ato!
Que se manche no asfalto
De vermelho tomate
Este é meu tapete!

O palco está armado
O sangue derramado
Agora, o artista é amado
Pela plateia de alcateia

Assim, é a arte: é arma
Ouse desafiar
Afie seu discurso retaliador

Porém, é melhor se render!
Sobreviver não é vida
É sobra de vida.

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Visão de curto alcance


Tanto menos se sabe, tanto maior é o sofrimento.
Dostoiévski

Alguns desenvolvem de maneira quase inata o necessário para estar no hall da fama. O grande lance de ganhar visibilidade. Receber sobre si o olhar da maioria, mostrando as raízes do divertimento humano. Então, o palco para os freak shows e afins está armado. Tem que ter criatividade, pois a plateia se entendia fácil, fácil.

Para se ter ideia, hoje em dia, aparecer com melancia na cabeça é coisa ultrapassada. Os glúteos em forma de melancia é que é chamar a atenção. Difícil é lembrar o nome da garota prodígio disso. São questões sem questionamentos.

Neste panorama, surge outra resposta que não tem pergunta. Sem dúvidas, ser reconhecido por uma grande massa de desconhecidos se fazia o desejo mais íntimo de Leônidas. Ele nunca conseguiu seus 15 minutos de fama. Quem seria o louco de ceder espaço na mídia para um personagem tão sem graça?

“Hoje, vamos contar a incrível história do rapaz que, aos 30 anos, teve que cuidar sozinho, pela primeira vez, da casa na qual reside com os pais. E o pior, a viagem do casal para Fernando de Noronha durou cerca de quase uma semana. Muito tempo de solidão para o nosso bravo guerreiro da modernidade!”

Diante do evento que acabamos de exemplificar, como diria uma personalidade de repercussão paranormal: Esso non ecziste! Uma narrativa dessas, ao passar em qualquer veículo mediador dos interesses ditados pelo público, é o mesmo que pedir para queimar dinheiro.

Leônidas, o desconhecido, não compreendia a existência dele próprio, mas, se tivesse o status de famoso, acreditava que, num passe de mágica, a felicidade surgiria à vida monótona que tinha. Outra coisa que ele não compreendia era o processo para a formação de um símbolo idolatrado. Colocava a culpa no destino, na sorte. Se o Boninho não queria que ele fosse o próximo brother do BBB, o jeito era se conformar com a impiedosa seleção natural das celebridades. Quem enxerga limitado não pode ir além das barreiras, fazer o quê.

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Curta-metragem


- Você está linda, Cristina! Arrasou!

Que boa amiga se mostrava Joana. Mensagem de motivação. Mas, isso não seria o suficiente, mesmo Cristina usando a romântica correntinha. O coração de prata se destacava, harmoniosamente, com o decote frontal. Um pingente muito bonito consideraria algum homem oportunista olhando para outros motivos de palpitações. E mesmo com toda essa corrente de pensamento positivo, grandes decepções estariam por vir. Na verdade, tudo não passa de más interpretações. Essa é que é a verdade.

Vão as duas amigas, Cristina e Joana, à procura de noites mágicas de diversão. Momentos efêmeros, sim, afinal, a vida é curta mesmo. Cada uma das jovens tinha sua própria forma de sentir o pulsar das baladas embaladas por música, às vezes sem, às vezes com Lua, bebidas etílicas e afins. Dependia da fase.

Quase uma da manhã. Joana já tinha dançado tanto que já se sentia perdoada por ter comido o hambúrguer de 50 calorias a mordida. E a outra companheira de guerra, bem, deu um perdido na galera. Bom, mas, é por isso que existem câmeras... Entende, por que, geralmente, eu aparento saber de muita coisa do que relato? O que não vem ao caso agora. Conclusão, alguém tinha achado Cristina até bem demais.

Todo este conto de fadas filmado teve a duração de quase 15 minutos. Cristina só podia olhar, passivamente, a promessa de príncipe virando sapo. Ele acabava de roubar um beijo de 10 segundos em mais uma da mesma espécie. O anfíbio alfa, depois disso, foi pegar mais um drink, já que tinha derramado o anterior por causa do empurrão vergonhoso que recebeu da moça durante os “se vira nos 30”.

O que nossa princesinha Cris não sabia é que príncipes não costumam ter nobreza em noites solitárias de boemia. Palavras manjadas. E no romance, ilude-se a tola que queira ouvir as mentiras como se fossem verdades. E na paixão, ilude-se o tolo que vive pelas mentiras que fala. Tipos comuns vivem o mesmo filme quase sempre. Trocam os artistas, porém os personagens continuam.

sábado, 28 de agosto de 2010

A criação


Será que tudo tem que ter explicação?
A criação do homem é pela razão de Deus
Ou a razão de Deus é a criação do homem?
Onde está o coração?
Eu não sei...

O céu azul (que vejo)
Moldura a construção humana
Admiro com vários adjetivos
Que não sei dizer

E dos quadros estão saindo os anjos
Voam e povoam a imaginação do povo
A beleza explicada é desnecessária
Sem a sensação de Ser


Capela Sistina, Roma
26/08/2010
12:40

Imagem: La creazione - Michelangelo

sábado, 21 de agosto de 2010

Entre Arte


O que tem a Arte?
Mostre-me
A Arte que tem
Não está no lugar
Mas emana entre o entrar e sair

100 ou muito mais
Quero o que lhe representa
Sem mais reproduções


Museu Nacional del Prado, Madrid
21-08-2010
8 da noite

Imagem: La Vista - Pedro Pablo Rubens

domingo, 15 de agosto de 2010

Complementares


Minha alma aparentemente zen
As meditações sem controle
O controle em fuga
Querer o vivenciar, sem explicação de sentidos

Muito, esta é a intensidade do meu gostar
É tão diferente que tenho medo
Sei que não posso deixar isso ser meu guia
Mas, como se quero esquecer meu ego em seus braços?

E não posso
Minhas defesas me prendem
São lembranças que transcendem o presente
Tantas formas vazias no cheio do vácuo...

As cicatrizes reconstituídas em fragmentos
Que nem identifico mais, englobei tudo como se partisse de mim
Bastando-me para uma completa volta na roda da vida que roda
E não é assim que duas partes completas se complementam

O seu amor ainda está no meu corpo

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Photoshop mental

Sabe, têm dias que as aparências são apenas isso mesmo, pegadinhas. Mas, “olhe, um avião!” Esse tipo de pega nem funciona mais. Por que será? Porque é chato olhar para cima, entortar o pescoço, quando não se tem mais 4 anos de idade... Ou seja, isso ainda tá valendo se você for uma criança. Nessa fase, parece que qualquer treco é divertido. Apesar da maioria da garotada preferir ver a garota Maisa em vez da tia Xuxa.

E, assim, nada como passar batom, blush moderado e lápis nos olhos para realçar essa face conhecida por realidade. Vicente acordou assim. Não com maquiagem feminina ou afins. Ele percebeu a conspiração na qual (a)creditou. Gostar de alguém que não existe.

Coisa mais estranha. Lívia seguiu com as aulas da academia de ginástica como se tudo tivesse na mais normal rotina. Mesmo depois de tudo, de todo o barraco armado e desmontado, o olhar altivo da última bolacha do pacote se mantinha. Sua personalidade sensível e equilibrada, onde estava ontem? Anteontem? Semana passada? Quem, afinal, achou isso nela?

Os mesmos defeitos de sempre. Lívia continuava a mesma coisa. O amor de Vicente por ela, não mais. Agora ele ficou sem opção: quem amar? O jeito é assistir desenho animado.

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Aspirante a Miss Simpatia


A timidez pode ser uma barreira para o sucesso. Mas, sério, ninguém também fica mais cool ao chamar atenção com calças amarelas apertadas pagando de banana madura com glitter. Não é questão de moda, cada um faz a sua, né? Supostamente, não dá nada, é perdoável para os puros de coração alguém que use um shortinho com listras brancas de estrias nas pernas. O importante é ser feliz, se sentir bem consigo mesmo e ficar numa boa com o mundo.

Só que olhe para os famosos, o quanto cobramos para que eles sejam perfeitamente belos. Mais do que isso, aliás, envolve um público mais específico, uma avaliação mais genericamente especializada... É trabalho para um jornalista envolvido na análise da vida de quem está na fama. Não é bem fofoca, diria que publicação e divulgação da informação. Nada acontece sem intencionalidade. Oras, é uma questão democrática! As pessoas estão livres para gostar e gastar dinheiro para ver as novidades mais quentes do artista, político, atleta, recém-estrela, notoriedade que quiserem.

O pessoal de Hollywood vai envelhecendo e alguns ainda ficam surpresos pela Sandra Bullock estar com algumas rugas de expressão mesmo ela beirando 5 décadas de existência. Porém, quem cobra tanto dos outros por eles também é cobrado. Fato. E se alguém não liga para isso, não se preocupe: os outros ainda continuarão cobrando o padrão aceitável para uso e consumo.

O problema é essa fixação de ver uma celebridade por aí e exigir que ela esteja com o mesmo rosto, o mesmo corpo que foi visto no filme em que ela se tornou sexy symbol, chuva Sol ou brilhe chuva. Caso seja o contrário do esperado, tem perigo de sofrer retaliação por parte dos fãs. Motivo - quebra da regra número 1: “o ídolo tem que manter toda uma imagem idealizada para ser amado ao posar, de maneira ensaiada ou não, para as câmeras”.

Outra confusão é assistida quando o personagem de uma ficção é confundido com o papel exercido pelo ator no dia-a-dia. Um desses, aliás, estava seguindo a vida comendo um delicioso hambúrguer transgênico. Ouça o comentário que captei de uma jovem: “Nossa, mas, o fulano na novela tinha sempre o cabelo jogante! Ai, caramba, ele tá com uma tonalidade de pele pior do que pó de arroz! (Momento para uma pausa reflexiva) Pensar que já sonhei em beijá-lo! Credo!”.

E a garota que falou isso, Jyussarah, tem a mania de vestir regata mostrando a alça com strass do sutiã. Recebe, pelo menos, uma cantada de pedreiro a cada desfile na faixa de pedestre. Prêmio que é mostrado com disfarçada indiferença. Moça recatada é outra coisa. Jyu é outra coisa e não a recatada como ela imagina.

E para quê isso? Ambições, sim, ambições! Ela quer vencer o concurso de beleza promovido no colégio em que estuda. Ter o top mais top! Em outras palavras, ficar turbinada. Ser famosa, ser lembrada por todos como a estudante mais, mais, nem sei o quê. Mas, ser lembrada.

Não é de surpreender que ela tenha um monte de fãs. Um, em especial, é o nerd da sala. Dia de prova, a moça, mostrando necessidade, recebe as repostas (só ela também) do tirador de nota 10.

É uma pena que não saibamos o nome desse sujeito. Jyussarah decorou o nome de todos os integrantes do Nx Zero. E já tá esquecendo-os depois de conhecer a nova banda do filho do Fábio Jr. O nome do cdf continua uma incógnita. Quem sabe se ele parasse de comer queijo e deixasse de ser um rato medroso. Criasse coragem para sair do amor platônico, não ficasse parado olhando e conversasse qualquer coisa interessante para ter sua existência reconhecida. Assunto de interesse comum aos dois. Ela adora saber das novidades mais quentes dos famosos. Quem tá pegando quem e por aí vai.

A aspirante a Miss Simpatia em uma linha e o admirador nerd em outra. Mas, sabe de uma coisa? Para que linhas paralelas se encontrem, só mesmo numa viagem para além do infinito. E que viagem!

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Anjo de contato: 1 técnica para ir ao paraíso


A primeira impressão é a que fica. Onde estão mesmo os dados estatísticos para isso? Enfim, mesmo soando senso comum, a máxima dá asas para essa lógica: o que se imprime de alguém é visual. Tá, para aquele que bancar o engraçadinho: “e se a pessoa for cega?”. Por meio da sensação construída a partir do que se vê, ou por meio de outros sentidos ou não, tecnicamente, a pessoa há de fazer uma imagem do outro indivíduo com a qual se relaciona. Isso acontece em qualquer encontro, mais ainda, se for o primeiro.

Acompanhemos esta cena: Susy vai fazer o teste para atuar em um filme. Seus olhos farão contato com todo o ambiente entre palco e diretor. Foco no diretor: é esta plateia que ela tem que agradar se quiser ser selecionada para o elenco.

Momento de concentração. Esquecer o texto, fora de cogitação. Convencer que expressa aquilo tudo como se fosse seu pensar, já é. A atriz, na altura do campeonato, nem era mais Susy, e, sim, o anjo com cabelos cacheados, acastanhados e compridos, com gestos leves e precisos, de um olhar azul celeste.

- (...) Eu posso voar, sim, doce criança. Porém, ao ir à missa, lembre-se dessa premissa: Eu sou anjo. Anjos não são aviões. Dá-lhe carona ao céu não é minha missão.

O diretor ficou encantado com a atuação da moça. Antes dela, sete atrizes tinham feito o teste. Ele já até tinha perdido a fé, mas aquele anjo conseguiu ser divinamente adequado para encarnar o personagem.

Paraíso conquistado. Papel de protagonista garantido. Até a aparência de Susy cumpria conforme o idealizado pelo cineasta, para êxtase do mesmo. Ele queria ver tanto aquele personagem. O desejo foi concretizado por Deus sem nem precisar de oração. O diretor, homem de muita fé, tem princípios. Não iria amolar o Altíssimo por questões logo estéticas. Ou ficar pedindo que não chovesse naquele dia para manter seu lindo penteado alisado.

Resultado promissor para ambas às partes. Contato muito feliz. Contrato fechado. Um olhar azul celeste, transparência sem igual, cristalino e, mesmo assim, tão profundo. Olhos perfeitos para um anjo. Para Susy, apenas lentes de contato de cor safira verdadeira.

segunda-feira, 26 de julho de 2010

Peças e espaços de um quebra-cabeça

Ver o que sou é imaginar o que eu seja
A aparência do ser consiste em ver
O invisível não se imagina
Eu estou dando o meu melhor para ser Eu
E quero que você seja você
Assim, podemos ser nós

Qual história vamos montar juntos?

Ser em potência é o que venho construindo
Encaixar peças pode ser tão confuso
Dentro de mim, completo
Por não sentir falta de algo
Os espaços existem
Para sentir falta de alguém

Juntos, vamos montar qual história?

Em todos os mosaicos de gente, capturei perfumes
Que se condensam no meu corpo
A saudade vem da essência que me escapa.

quinta-feira, 22 de julho de 2010

De olho no lance

Um bar. Muitos homens. Um tanto considerável de mulheres. Quem estava lá naquela noite? Quem poderia ser? Chapolin Colorado? Na verdade, um torcedor do Vila Nova que o era desde os 11 anos, quando quis demarcar sua própria personalidade e estilo. O pai, paulista, torcia para o Palmeiras. Matias nasceu em Goiânia, escolher o Goiás como time poderia soar como influência paternal. Pai e filho com a mesma cor de camisetas de torcida... O vermelho mesclado com branco realmente foi um dos fatores mais decisivos para ser torcedor do colorado goiano.

Adrenalina, um dos hormônios mais frequentes no sangue de Matias. “O Vila é para os fortes”, ele dizia. Torcer era fogo. Altos e baixos no rendimento dos jogos, pura emoção no bonde da torcida do tigrão. Nadava, nadava, quer dizer, corria, corria, e ficava na segundona.

Nada de frustração! Esse era o lema. Porque só quem era torcedor do Vila para saber a raça da torcida. Matias não entrava nas jogadas ensaiadas de torcida organizada, não queria visualizar com os próprios olhos problemas com spray de pimenta e derivados nada pacíficos. O vilanovense estava mais a fim de escolher as musas do goianão, porque é sempre importante averiguar o nível de qualidade das torcedoras.

A noite estava para gatas. E, se tratando em matéria de azaração, Matias era craque, tirava de letra, matava no peito, fazia golaço. Todo o esquema tático preparado. Quatro mulheres em uma mesa versus dois amigos em outra, duas versus dois, duas versus um, estava analisando qual a melhor opção.

Pouco tempo depois da análise de campo já foi o suficiente para perceber que uma tigresa estava pronta para o jogo da sedução. Quando a moça percebeu o olhar dele para ela, brindou com o copo cheio de cerveja e sorriu o sorriso mais insinuante do mundo, tipo mulher gato total power. Com a bola toda, a mulher convidou-o para a mesa dela e, como dar bobeira ia abrir a zaga para a concorrência, Matias foi confiante para o ataque.

Dez minutos. Conversas convencionais, nada que precisasse de muitas palavras, era só mais um aquecimento. Estava criada toda a expectativa, toda a tensão. “Quando ele vai me beijar?”, Brenda pensava. E neste pequeno deslize, pela pequena distração, a bela vilanovense foi surpreendida. Com atenção total, Matias não perdeu nenhum lance da partida, o Vila acabava de sofrer o primeiro gol do primeiro tempo. E só os dois felinos, com uma troca de beijos quente, tinham algo para se manterem esperançosos após o final do jogo.

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Ao encontro do outro

Ao espelho confessava, de frente, o seu rosto para o olhar. Tinha acabado de acordar e, mesmo assim, se sentia muito bela. Coisa rara. Nem sempre de bom humor para o Sol que ainda haveria de vir. Queria sempre mais um tempo na cama, terminar os sonhos nonsenses que tinha e nem sempre retinha na memória.

Alma de segredos e uma mulher. Livros do volume I ao X. O final voltava ao início. Ouroboros inscrito na existência humana. A compreensão do sensível retirava a carne das lágrimas.

Acordou e só podia ver, naquele instante, sua face. Hoje, com os conceitos. Amanhã, sem saber quem seria. Os limites em teste para alcançar as possibilidades de ser. Já não era mais ego, estava além.

Acabou o dia. Permitiu-se a noite. Seduziu um homem. Pura vontade de instintos. Para ele, um quadro de enigmas. Deixava-se levar pela doce aventura. Fugia ao seu controle qualquer resistência. Ela, esfinge que agora se lembrava do bem insuspeito nos seus olhos de lascívia.

terça-feira, 13 de julho de 2010

Partida

Era isso mesmo que o senhor estava comunicando? Este momento de transição foi suficiente duradouro para poder lhe dizer mais uma vez que te amo, papai.


Sentirei falta dos abraços afetuosos, das nossas conversas... Tive o melhor mestre que um filho poderia querer.


Vou sentir saudades de uma das mais belas poesias que se realizavam na sua presença. Era quando eu chamava-o de papai.

sábado, 3 de julho de 2010

Mr. Mojo Risin


27 anos
Todos os corredores
Alcançaram a marca
Jimi
Janis
Jones
E você
Jim

Na capital das luzes
Jim buscou o descanso
Escrever aquele livro
Que não sabia o final

Nos confins da noite
A banheira banhou
O seu corpo
Não com água
Mas com o holofote
Da morte

Morrison, tudo em você foi over
Meio-termo?
Não era o seu caminho do meio
Eram os extremos
Onde estava a sua liberdade
A experimentação da vida
A overdose dos sentidos

Uma estrela que nunca perde o brilho
Mr. Mojo Risin surgindo...
Porque o azul do céu é infinito blues.


Jim Morrison
* 08/12/1942

+ 03/07/1971

sábado, 19 de junho de 2010

Inconsciente

Nenhum eletroeletrônico ou móvel para pelo menos descansar o corpo. Um grande espaço em branco. O silêncio por todos os cantos, apesar das dimensões invisíveis do lugar. O aroma inodoro e fresco de um frio glacial. Seria o quase nada se não fosse a presença de Lílian.

Do outro lado, oito camas, pacientes, em um espaço repartido, ruídos irregulares conforme as batidas do coração. Dia e noite, a mesma iluminação, clara e dura no branco gelo. Um espaço comum e universal, sem identidade. Artificial todo o ar, condicionado às temperaturas baixas. Insensibilidade quebrada pela água com sabor de soro que escorria bem suavemente dos olhos de Augustus.

Vinte anos de vivência poderiam ser cortados pelo fenômeno natural em que os seres vivos se apresentam efêmeros. A mulher de sua vida estava por três dias constantes em sono profundo. Quando ela iria despertar daquele estado letárgico? Inconsciente.

Augustus tocava as mãos macias de Lílian. O intuito de passar de uma matéria para outra, como em um circuito elétrico, o carinho intenso que não poderia ser de forma alguma distante. Conversava mentalmente em silêncio. Se juntos alcançaram o paraíso concebido num sistema de lógica incompreensível para os mortais, os pensamentos e sentimentos de amor também teriam que alcançar a amada esposa.

As mãos de Lílian e Augustus se apertavam reciprocamente. A fé conectou-se ao milagre.


quinta-feira, 17 de junho de 2010

Chamas de Natal

Pedido natalino
Desce pela chaminé
Abaixo e pronto

Descuidado presente
Nessas horas, a lareira pode estar
Acesa e fumegante

Simples causa existencial ou não
O que se tem (,) dado em combustão
Carbono e oxigênio

O que o amor vai queimar?
Fica a escolha de dois:
Fogo eterno e eterno fogo

sábado, 5 de junho de 2010

Transparentes entrelinhas

Estar em alguns lugares, mesmo ausente, tem muitas vantagens. Acredito que não ouviria essas confissões na igreja. Dizer o pecado praticado qualifica a cena feita. Mas, uma consciência do tipo autêntica predica morais particulares.

Juan nunca disse à mulher a qual namorava a sete meses que no dia em que ele fosse promovido ao cargo de chefia, o romance acabaria. Madrid não é um lugar para morar com Pilar. Na verdade, ele nunca pensou em casar com ela.

Mas, enquanto, as coisas não aconteciam, a vida ia seguindo sem muitas significativas mudanças. Pilar vai contando para as amigas o quanto é feliz por ter um namorado como Juan, ele, por sua vez, alimenta o sonho de alguém por pura vaidade. É sempre bom ter uma pessoa que faça as vontades alheias de bom grado. Ela é linda, já está ótimo para que possam desfilar juntos nos shoppings e chopps, deixando os amigos com pontadas de inveja.

Três meses depois. As malas, aos poucos, estavam sendo preparadas. Uma semana antes da despedida definitiva. As melhores palavras eram escolhidas para finalizar o happy end como manda o figurino.

O recém-promovido foi à casa da namorada para conversar. Coisas simples. Explicar que tudo tinha sido bom e bonito entre eles, que foi eterno enquanto durou. E o casamento, que eles tanto planejaram, então, não teria mais como se realizar, porque é difícil conciliar carreira e família ao mesmo tempo. Madrid é uma oportunidade única. Ou seja, Juan não falou com todas as palavras, mas no subentendido dizia: “Mulheres sempre estão em oferta”.

Pilar ouvia todo o ensaio de Juan de forma tranquila. Uma cara de complacente, como costuma ser a expressão das mocinhas de novela, algo que beira a uma doçura que de tão doce se torna enjoativo. O rapaz via a reação da moça meio perplexo. Ele esperava pelo menos umas lagriminhas de leve.

No fim, os preâmbulos do beijo de despedida, seguido de uns versos fabricados a partir de um filme ou música, vai saber: “Pilar, aonde quer que eu vá, vou lembrar de tudo o que você foi para mim”. Juan abraçou a mulher com antecipadas saudades, verdadeiras mesmo. Nessa hora, ele percebeu que apesar do premeditado e chegado momento, não esperava que, no final de tudo, iria sentir uma forte ligação com a mais nova ex-namorada.

Depois do abraço, a moça se desvencilhou de Juan de forma natural, já chegando para a cena do último ato. Beijou o rosto dele, sorriu transparentemente alegre, acenou com a mão o “tchau”, voltou para a casa dela.

O rapaz queria voltar para a casa dela também. Era a hora da partida, mas aquele desfecho não foi o imaginado. O beijo compartilhado não aconteceu. Ele nem tinha transferido a sensação de nostalgia para Pilar e, assim, ficava com isso sozinho para si mesmo.

Juan não sabia. Pilar, mesmo com o fim do namoro, se sentia feliz. Entendia a situação, queria muito o bem dele e desejava, no fundo do seu coração, felicidades na nova empreitada daquele bom homem cheio de qualidades. Com ele, adquiriu experiências que a tornaram mais madura. Ela se sentia agradecida. Pilar já estava em outro relacionamento amoroso.

sexta-feira, 4 de junho de 2010

A Lua disse eu te amo

Tantas pessoas nesse mundo
Eu fico em encanto profundo
Porque de cara com a Lua
Pés flutuaram na gravidade nua

Palavras guardadas para a noite
Antes, lembro o que me disseste
Agora, está perdido qualquer disfarce
Encontrando, depois, o que me faltasse

Tenho o amanhecer da ausência tua
E andando por qualquer rua
Pensamento arranhado, som repetitivo
Eu quero seu sereno de novo

A Lua mudou a minha vida em outra fase
Ofertou-me fé para esta frase
Ser proferida entre estrelas-mor:
Eu te amo, amor.

quinta-feira, 3 de junho de 2010

Passagem

Amor
Nunca pensei sobre...

E quando penso
Todo o processo
Mostrasse maior
Do que uma casa

Uma pobre
Casa
Pisos
Quebrados
Por poucos
Passos

Por isso
Nossos sonhos são muitos
Vão além do dito suficiente
E estipulado nos contratos

Mesmo assim
Em mim
Vai faltar algo
Ainda devo
Aquilo
Daquilo
Que devo

Só me mostre
Meu bem, que o amor
Faz-me perdoada
Desta dívida

Leve-me leve
Para um passeio

Tudo na vida passa
A vida passa

E neste percurso passageiro
Eu quero ficar com você.

x x x x x x

Depois de ler o poema, vejam este videoclipe da banda The National - Bloodbuzz Ohio.

http://www.youtube.com/watch?v=K779pqvYQds

domingo, 30 de maio de 2010

Iconoclasta

Quem é Chris? Vamos conhecer essa personalidade. Ela é uma pessoa delicada, sensível. Todas essas características emanam do seu corpo de forma natural, a começar pela face. Traços finos e delicados, o seu rosto transmitia a figura de uma ninfa esculpida a partir do retrato pintado, minuciosamente, por Botticelli. De um escuro forte são os seus olhos bem vivos. Escondia profundos mistérios que nem a alma poderia enxergar.

O corpo que desfilou por semanas nas fashion weeks mundiais. Estampa para várias revistas, jornais, sites, blogs e afins que se propõe lançar modismos e estar na moda.

Com carreira consolidada, a modelo saiu antes que sua imagem decaísse. Porém, deixou jornalistas, palpiteiros, especialistas, acadêmicos, pesquisadores e toda a massa que está envolvida diretamente e indiretamente com a mídia informacional de queixos caídos. Chris havia lançado o seu livro: Vendo moda.

O título por si só já causava comentários diversos. Aliada à famosidade por trás desse trabalho, o livro era o frisson já na estreia de seu lançamento. Todos queriam adquirir o produto, mesmo sem saber direito do que se tratava. Os comentários e a publicidade em cima do escrito eram super positivas, rasgando cedas de elogio.

A obra escrita pela top ficou por semanas no topo das listas de livros mais vendidos, traduzido em mais de oitenta idiomas. Sucesso de vendas que não ficou preso naquele ano temporal somente: fora reeditado várias e várias vezes.

Durante todo o livro, os capítulos são recheados com declarações, impressões, digressões, ações reflexivas e emotivas da estrela das passarelas sobre sua fase de vida que transitava no fashion world. Viver conectou-se, assim, simbioticamente, com uma vida global.

No capítulo final, a seguinte revelação: “O sonho consistiu em ser a modelo das passarelas. O pensamento onírico provinha de um corpo, biologicamente, sendo ele, mesmo sendo o meu”.

A dúvida que não quer calar: Quem é Chris? Jornalistas, palpiteiros, especialistas, acadêmicos e pesquisadores estão à procura da solução deste caso para oferecer respostas conclusivas. Pode ser tudo ou não ser nada. Uma mulher, um homem ou uma transexual envolvida. O que será? Possíveis relações de alguém, com quem e entre quem. Qual é o objeto de estudo?

Diante todos os fatos, Chris se tornou imortal.

quinta-feira, 27 de maio de 2010

Palavra que sai em boa hora

Atitudes valem mais do que palavras. Essa sabedoria popular a gente costuma se deparar por aí, numa conversa entre amigos e, também, em alguns comerciais. Veja a fórmula mágica: atitude = comprar. Este é um palpite que pode ser dito em várias situações só por dizer.

Vamos pegar um exemplo comum: uma data especial, dia das mães. Você até quer escrever um monte de palavras que expressem todo o sentimento de carinho e amor pela sua genitora. Quer demonstrar o Drummond interior que está em alguma parte, lá no fundo da mente.

Contudo, na hora H, faz uma reflexão. Vê a mamãe. Percebe que ela está querendo é uma televisão de plasma. A cartinha que seria feita à mão, dá lugar a um monte de parcelas no cartão de crédito.

Por que isso vai ser feito? É necessário ficar endividado? Essas perguntas saem de si para você mesmo. Aí, neste momento, parece meio paradoxal, como que para representar algo vindo do além, uma voz aparece e diz com um ar todo resoluto: “O presente é que mostra o grau de consideração por sua mãe. O presente fica. As palavras vão embora. Fica a dica”.

Mudando um pouco o foco. Um outro caso. Briga física idiota: o mais forte é o material que vai ter maior resistência a socos, chutes e afins. O valor estipulado de mais valia, rezando a ladainha de que atitudes valem mais do que palavras, pode-se inverter. As palavras ditas, em péssima forma, podem transferir um peso na memória de quem as recebe, que academia de ginástica não tira. São mais cortantes que a lâmina ao dilacerar uma carne para churrasco. E agora, Josefina?

Depois de tanto escutar um só lado, quase que um monólogo, o outro responde:

Ora, ora, deixemos essas questões filosóficas para uma outra hora. Daqui a pouco vou ver o meu namorado. Ouvir palavras amáveis e sinceras são atitudes super válidas. Embora isso saia do meu amado, espero, também, que ele se lembre de me dar um presente, porque hoje é nosso aniversário de namoro...

segunda-feira, 24 de maio de 2010

O fogo que não é de videogame

Via aquelas imagens. O espectro era a fusão de uma irrealidade real. E aqui estamos nós, novamente, patrocinando mais um espetáculo para os telespectadores massivos. Depois desta apresentação, é dispensável que você, que está me assistindo nesta mensagem, me considere um fantasma.

E é, por isso, que presencio a consciência daquela simplória garota. Tudo começou em um sonho. Ela visualizava os próprios devaneios e projetava na vida real. Adivinha o que ela assistia? Um monte de clássicos… da Disney. Então, a pequena donzela ficava inventando de ser boazinha com todo mundo.

Ir na igreja aos domingos, ajudar os velhinhos a atravessar a rua, fazer pequenas caridades. Ficava em falta era de resgatar gato sem noção de árvore. Só que, além dela ter alergia a Garfields, escalar vegetais de grande porte soa meio fora do padrão como esporte para garotas. Como o pessoal diz mesmo? Ah, é, trepar em árvore. É assim que é a voz do povo. Voz de? Sem comentários com essa comparação infame.

Pois bem. Os seres vivos passam por um processo de maturação. Ela passou a ver também conteúdos do tipo Malhação, coisa que nunca morre pelo jeito. E um dia o episódio foi muito bacana, quero dizer, estranho. Esquisito para o padrão comum, porque aquilo estava filosófico demais para um público destinado para jovens (ou não) que no fundo dos seus corações, realmente, buscam uma distração da vida real regada a hormônios excitantes. Ser bonito, ter dinheiro e ter alguém para formar o par perfeito não é tudo que alguém precisa para ser feliz? O episódio do dia fez Estéfani pensar que não.

A garota entendeu que, de alguma maneira, já consumia aqueles produtos, mas, não os tinha internamente. Beleza fulgurante, padrão de vida de acordo o figurinho vigente e namorado figurante. Com essa caracterização das relações, até as artes plásticas mandava um alô para a moça.

O namoro artificial acabou. Mas, Estéfani não abdicou dos costumes consumistas, pois, assim, como ela iria comprar o novo cd do Paramore? Ah, ela também manteve os cuidados com a aparência estética. Nem precisa ser muito inteligente para deduzir isso. Tente ir com um visual punk para ver se consegue, facilmente, emprego. Numa balada, em qual tipo de pessoa você quer chegar: na feia ou na gostosa?

Alguns meses se passaram, mesmo sendo a patty, um pouco de realidade nunca faz mal. Ela transcendeu os valores de mundo adquiridos. De tão iluminados os pensamentos dela, Estéfani viajou que era a nova Buda dos novos tempos. Previu os trocadilhos tão corriqueiros da língua portuguesa e, ideologicamente, articulados com as paixões nacionais. Futebol ela gosta quando é copa do mundo, porque no Brasil, tirando o Kaká, o resto é muito feio. Carnaval, se for por causa das mulheres peladas, ela tá fora, a praia dela é outra, e o Sapucaí pouco se importa. Cerveja não, porque engorda.

Afinal, alguém deve estar se perguntando: qual foi o aprendizado da montanha de Estéfani? O amor é mais fácil para quem é menos. No patamar que ela chegou, eu digo que é fogo chegar a pensar assim, apesar das chamas gerarem luz. Correspondência plena ocorre entre semelhantes para não ter desigualdades. O diferente costuma gerar indiferença.

Quem chegou até esse ponto da leitura, nada de exclamações do tipo “Caramba, não se fazem mais morais conservadoras como antigamente”. Velhos tempos eram aqueles…

sábado, 15 de maio de 2010

Volta e meia, reviravoltas

Conclusão feliz. Uma felicidade advinda de um truque de mágicas em que o julgamento se torna a verdade.

Mas, sabe qual é a ilusão que vou recriar hoje? Não se trata daquela em que todo jovem é cheio de vida e tem um futuro pela frente. Ele pouco se importava em fazer investimentos que deixassem a vida eterna garantida.

Nosso guerreiro precisava de poucas coisas para enfrentar a lida que, para tantos homens, é dura e dolorosa. Galopava em possantes carros de 18 cavalos de potência. Cartão de crédito e adquiria as virtudes admiradas por belas donzelas que brigavam entre elas para ganhar o coração de ouro do jovem rapaz. Bando de vendidas.

Pouco valia o coração de Artur, porque ele creditava a própria ignorância em um valor fora do mercado. Previa o tédio antecipado: o presente como um prolongamento do futuro. Sabia que o jogo para o príncipe já tinha os meios traçados. As finalidades.

Conquistar ainda mais. Ele questionou essa meta. Chateado pela realidade lidada, inverteu a ordem da lógica considerada a correta. Ofereceu a busca da vitória para os conquistados. E mesmo assim, continuaram derrotados.

Fé já esmaecida, a luz reacendeu em Ariana, uma moça que nunca se submeteu a Artur. Ele compreendeu a amplitude e a singularidade da força dentro dela. Sem fim.

Deste momento em diante, o jovem se formou homem. A vida que não tinha, nasceu. Enfim, cultivou-se sementes de princípios e inícios.

Veio um, depois o outro. Muitos anos se passaram. Artur e Ariana alcançaram o céu. Lugar de poucos anjos. Será que isso tem haver com o amor?

Deixo em aberto as infinitas possibilidades de respostas para uma combinação de conclusão feliz. Só que entenda: ainda estamos em curso.

sábado, 8 de maio de 2010

Vamo' nessa!


Foi o pedido feito
Do dito veio isto
Um clichê de poeta?
Definição infinita

Oras, que patético
Porque é muito pouco
Esta simples rima
Por normas de poema
Falar o que se é no que sou
Limitando o além do verso
No sonho do milênio que passou
Essa lavra do poético
O que o tempo não é
Quando eu realmente sou
As palavras não alcançam
Nas fotos e nos fatos
Captura vã
Os fragmentos que fomos
E não somos mais
Que bela criação
A amizade construiu
Você nunca se viu
E eu não sei o que sou em seu olhos
Qual reflexo pareço nestes espelhos
É pura interpretação do meio
Começo com qual fim
Não dê importância
Se o futuro carregar mais um pouco
Do que você não sabe, amigo
Vá nessa
Comigo

Vamo’ nessa!

domingo, 2 de maio de 2010

Yes, Tio Sam!

América
O lugar onde todos estão
Os sonhos estão presos em sacolas plásticas

Acreditei tanto nas suas ilusões, Tio Sam!
Pensei que fosse de verdade
O meu amor

Propriedade e liberdade privada limpadas por latinos
Soluções individuais nas mãos do herói
Na mão, popcorn e outros produtos pop

A promoção da guerra faz parte dos negócios do império
O outdoor está dentro de nossas televisões (d)e plasma
Consuma, porque sem dinheiro você é quem?

Olhe, o Dr. Hollywood está trabalhando!
Mais alguns pontos na constante ferida
E vai ficar tudo bem

Deus salve a América!

domingo, 25 de abril de 2010

A visão pós-humanista de Edgar Franco* - Parte I

Por Marielle Sant’Ana


Edgar Franco é um artista multimídia e tem experimentado criar trabalhos para suportes hipermidiáticos, batizando essa linguagem híbrida de quadrinhos e hipermídia de “HQtrônicas” (histórias em quadrinhos eletrônicas), cuja pesquisa foi desenvolvida em seu mestrado. Um de seus trabalhos, intitulado “NeoMaso Prometeu”, recebeu menção honrosa no 13º Videobrasil – Festival Internacional de Arte Eletrônica (Sesc Pompéia/2001). Sua pesquisa de doutorado “Perspectivas pós-humanas nas ciberartes” foi premiada no programa “Rumos Pesquisa 2003” do Centro Itaú Cultural, em São Paulo.

Para entendermos o pós-humano e o entrelaçamento deste tema com a arte, segue a entrevista concedida, via correio eletrônico, pelo professor e artista Edgar Franco:


Marielle Sant’Ana: O conceito do termo ‘humano’ remete-se ao próprio homem enquanto ser biológico. ‘Pós-humano’ refere-se a algo além do humano, isto é, a extensão da natureza, o homem, em junção com a tecnologia, a máquina. Como surgiu o seu interesse pelo pós-humano na arte?

Edgar Franco: O termo pós-humano é motivo de muitas controvérsias e definições diversas. A compartimentação e corporativismo das áreas acadêmicas acabam por gerar muitas visões divergentes sobre o que pode vir a ser o pós-humano. Na verdade, o termo foi inventado pelo intelectual norte-americano de ascendência egípcia Ihab Hassan em um ensaio publicado em 1977 na Georgia Review intitulado Prometeus as Performer: Toward a Posthumanist Culture. O autor acreditava que esse neologismo poderia ser usado como mais uma "imagem do recorrente ódio do homem por si mesmo". A definição de pós-humano que mais me interessa é a que trata de uma possível ruptura na compreensão tradicional do que consideramos "humano" a partir das mudanças de ordem física e cognitiva que os processos hipertecnológicos - como biotecnologia, nanorobótica, nanoengenharia, prostética, conexão em rede, robótica e realidade virtual - estão produzindo em nossa espécie e de uma perspectiva de aceleração dessas mudanças.
    As artes narrativas tradicionalmente já discutem a hibridação do humano desde o início da expansão tecnocientífica. O primeiro romance de ficção científica da história, Frankenstein, da autora inglesa Mary Shelley, já tratava da criação de um ser que mixava partes de muitos outros humanos para sua criação, e era um produto da ciência. Talvez esse seja um dos precursores da concepção atual de pós-humano. No cinema, monstros híbridos humanimais ficaram notórios também, como nas adaptações do célebre romance "A Ilha do Dr. Moreau" de H.G. Wells, um trabalho fenomenal que antecipou experimentos recentes da tecnociência como a criação da primeira ovelha transgênica que inclui 15% de genética humana.
    Enfim, acho que o meu interesse pelo universo do pós-humano nas artes vem da infância, desde quando comecei a fascinar-me pela literatura, HQ e cinema de FC (Ficção Científica). Mas não é só nas artes narrativas que o pós-humano tem gerado trabalhos contundentes, também artistas da chamada ciberarte têm utilizado inclusive de tecnologias como transgenia e robótica para fazerem reflexões sobre a condição pós-humana, como Stelarc que implantou uma terceira orelha em seu braço esquerdo, e Eduardo Kac que produziu uma coelha transgênica fluorescente e objetivava transformá-la em seu animal de estimação.
    Sou adepto da ideia de que os artistas funcionam como "antenas da raça" - uma concepção do genial teórico da comunicação canadense McLuhan - ou seja, os artistas têm essa capacidade de vislumbrar o porvir e esse é um dos papéis fundamentais da arte no seio da cultura ocidental. Infelizmente, poucos compreendem essa importância seminal da arte e ela continua sendo vista como "adereço" pela maioria dos setores da sociedade. E não confundamos aqui cultura de massa, feita para alimentar a indústria do entretenimento com arte.

Edgar Franco em foto para o projeto musical Posthuman Tantra

MS: Quadrinhos como o ByoCiberDrama e Transessência, além do projeto musical da banda Posthuman Tantra são alguns de suas manifestações artísticas que se inspiram no pós-humano. De que forma este conceito estrutura sua arte?
EF: Minha obra multimidiática tem sido estruturada, desde 2000, sob o leque de um universo ficcional transmídia chamado de "Aurora Pós-humana". Esse mundo de ficção científica evoluiu muito no período de minha pesquisa de doutorado em artes na USP e foi inspirado pelos artistas, cientistas, tecnólogos e filósofos que refletem sobre o futuro da espécie humana a partir de suas relações com os processos de aceleração hipertecnológica. Também sou influenciado pelos reflexos do pós-humano na cultura pop, com o surgimento de filmes, animações, etc., e de seitas como a dos Extropianos, Transhumanistas, Prometeianos e Raelianos. Estes últimos, por exemplo, crêem na clonagem como possibilidade de acesso à vida eterna, nos alimentos transgênicos como responsáveis futuros pelo fim da fome no planeta, e na nanotecnologia e robótica como panacéia que eliminará o trabalho humano, liderados pelo pseudo-guru Raël, um hedonista que constrói todo seu discurso a partir das previsões mais otimistas da cência.
     Nesse caldo fervilhante de polêmicas, previsões e vivências, surgiu, ainda no ano de 2000, o germe desse universo poético-ficcional que posteriormente batizei de "Aurora Pós-humana". A idéia inicial foi imaginar um futuro, não muito distante, onde a maioria das proposições da ciência & tecnologia de ponta fossem uma realidade trivial, e a raça humana já tivesse passado por uma ruptura brusca de valores, de forma (física) e conteúdo (ideológico/religioso/social/cultural). Esse universo foi batizado inicialmente de "Aurora Biocibertecnológica"; um futuro em que a transferência da consciência humana para chips de computador fosse algo possível e cotidiano, onde milhares de pessoas abandonarão seus corpos orgânicos por novas interfaces robóticas. Imaginei também que neste futuro hipotético a bioengenharia teria avançado tanto que permitisse a hibridização genética entre humanos e animais, gerando infinitas possibilidades de mixagem antropomórfica, seres que em suas características físicas remetem-nos imediatamente às quimeras mitológicas. Finalmente imaginei que estas duas "espécies" pós-humanas tornaram-se culturas antagônicas e hegemônicas disputando o poder em cidades-estado ao redor do globo enquanto uma pequena parcela da população, uma casta oprimida e em vias de extinção, insiste em presevar as características humanas, resistindo às mudanças.
    Dessas três raças que convivem nesse planeta Terra futuro, duas são, o que podemos dizer, pós-humanas, sendo elas os "Extropianos" (seres abiológicos, resultado do upload da consciência para chips de computador) e os "Tecnogenéticos" (seres híbridos de humano e animal, frutos do avanço da biotecnologia e nanoengenharia). Tanto Extropianos, quanto Tecnogenéticos contam com o auxílio respectivamente de "Golens de Silício" – robôs com inteligência artificial avançada (alguns reivindicam a igualdade perante as outras raças) e "Golens Orgânicos" – robôs biológicos, serventes dos Tecnogenéticos. A última raça presente nesse contexto é a dos "Resistentes", seres humanos no "sentido tradicional", raça em extinção, correspondendo a menos de 5% da população do planeta.
Ilustração por Edgar Franco

    Este universo tem sido aos poucos detalhado com dezenas de parâmetros e características. Trata-se de um work in progress que toma como base todas as prospecções da ciência e das artes de ponta para reestruturar seus parâmetros. A partir dele já foram desenvolvidos uma série de trabalhos artísticos, em diversas mídias e suportes, atualmente outras obras estão em andamento.
    “ByoCiberDrama" é um álbum de quadrinhos que traz a história de um resistente. Ainda nos quadrinhos tenho a série de gibis "Artlectos e Pós-humanos", com HQs curtas que se passam no contexto de meu universo ficcional. O terceiro número, lançado em 2009, recebeu o Troféu Bigorna de melhor publicação Brasileira de Quadrinhos de aventura. No campo das narrativas híbridas, tenho as HQtrônicas (HQs eletrônicas), "Neomaso Prometeu" (Menção honrosa no 13º Festival Videobrasil), "Ariadne e o Labirinto Pós-humano" e "brinGuedoTeCA 2.0". No campo da web arte, tenho o site de vida artificial "O Mito Ômega" (www.mitomega.com), trabalho a série de ilustrações híbridas chamada de "A Era Pós-humana". Criei no ano passado a instalação interativa "Immobile Art" e, finalmente, tenho o projeto musical sci-fi ambient "Posthuman Tantra" que é contratado da gravadora Suíça Legatus Records e estará lançando nesse ano seu segundo CD oficial. Todos esses trabalhos envolvem aspectos diferenciados do universo ficcional da "Aurora Pós-humana".

*Edgar Franco é arquiteto pela UnB (Universidade de Brasília); Mestre em Multimeios pela Unicamp (Universidade Estadual de Campinas); Doutor em Artes Plásticas pela ECA/USP; e professor da FAV- UFG - Faculdade de Artes Visuais da Universidade Federal de Goiás, em Goiânia.

sexta-feira, 16 de abril de 2010

Poeta Geraldo Pereira e a homenagem

O poeta goiano Geraldo Pereira em seu livro Pescando Versos Graúdos em Águas Goianas(2009) realiza uma homenagem poética a vários autores goianos (Emílio Vieira, Ester Casimiro, Gilberto Mendonça Teles), dentre eles, eu. Eis a transcrição da pescaria poética que o Poeta pescou nas minhas obras Verso e Reverso (2003) e Muito mais... (2005):

E a Poetisa MARIELLE SANT’ANA,
Com seu Verso e Reverso, constrói o Universo
Com Muito Mais... mente sana.

Ela não quer nada mais do que dar um “Sentido” à vida,
Não almeja mais do que viver a vida
Guiada pelo amor, na mais perfeita sintonia
Com a poesia: “A vida foi feita para viver,
e pra viver tem que ter vontade
”.

De bem com a vida a Poetisa não finge, sente,
Não mente o que sentem coração e mente.
E o seu sentir dá sentido aos que não sentem.
Ela diz: sentem aqui que vou iluminar os seus caminhos
Para seguirmos juntos, guiados pelo brilho da poesia!
Mas, primeiro, põe todos a pensar:
- “Qual é o sentido da luz? /O sentido da luz é bem simples:
É só ter amor no seu interior, / Pois a luz é o próprio amor
”.

O amor é lente de alto alcance,
Amplia a visão dos olhos e do coração
- “E quando surge o amor, / eu fico assim:
sem achar nada, / eu acho tudo
”.

Não obstante o caos, o cão a ladrar nas veias do mundo,
Com seus sentimentos poéticos ela metamorfoseia a dor em amor
E nos mostra que “O mundo é uma arte
E “Na arte expressamos tudo:
Desde os nossos sentimentos / A nossa visão de mundo,
Como é bom sonhar e voar / E a vida retratar!


E se o mundo fermenta no seu seio a guerra,
E amamenta a humanidade, a terra, com horror,
Ela nos indica o caminho com “Muito mais...” amor,
Com muito mais paz:
A paz é muito mais do que bandeiras brancas,
(...) / A paz depende de nossas ações:
(...) / é muito mais do que palavras bonitas,
é muito mais do que textos e poemas”; “paz é você que faz
”.

E como “Navegar” é “Preciso” e viver é mais que preciso,
Precisamos sonhar e viver. Construir o mundo,
Navegar no oceano dos sonhos e não viver num sono profundo.
Mesmo que, na realidade, a realização do sonho
Seja como “A procura de um agulha no paiol,
Em uma caça às cegas
”, a Artista vai à luta,
Pois sabe o que quer: “Almejo os raios do sol
Que a manhã não me nega
”.

Os seus “Versos normais” são “Só amor”.
São versos compostos para preencher o “Vazio” e aquecer o frio.

Ela navega no oceano do seu “Ser
Na “Busca ideal” da “Liberdade”:
Irei contra o estabelecido / Buscando o ideal”;
Não é a forma que importa, / E, sim, a liberdade de pensar”.

Do “Espelho” da sua alma ela reflete a essência da vida – Poesia:
O sentido da vida é ter amor...
Amor no que pensa, amor na ação,
Amor no que fala, amor no coração
”.

Dentre os seus “Pensamentos importantes
Estão os de se ter “Amizade de verdade
E muito “Amor...” para toda a humanidade:
A mor é o sentimento
M ais maravilhoso,
O mais belo, o mais sublime e
R adiante na vida
”.

Assim são os seus “Sonhos de criança”:
Os sonhos de criança / São simples esperança”.

sábado, 10 de abril de 2010

Sentindo pelos olhos

- Morena, você levou meu coração... Tô apaixonado!

Ao ouvir aquela frase, Raíssa ficou incrédula. Ok, nem tanto por se tratar de um ambiente de festa. Se fosse somente por causa da criatividade ousada de falar algo tão batido, a mensagem era algo de tocar um ser sensível, não de afeto, mas de fúria. Ela queria levar o coração do sujeito para torrar no Sol sozinho.

Com um olhar clínico, dá para supor o que aquele rapaz do qual não se sabe o nome pensou antes da cena premeditada: “Olha que fruta mais linda! Rebolando cheia de... Nossa, o que faço para chamar a atenção?”.

E conseguiu chamar a atenção para o quanto ele pode ser um idiota. Passando a ideia de que sentimentos se constroem pelos olhos; logo, aparentar beleza é fundamental. Azar o dele, Raíssa tem outra visão.

domingo, 4 de abril de 2010

O que ressuscitamos na Páscoa


Quatro dias de feriado. Famílias se (re)encontram. Consumimos ovos de chocolate que contenham brindes ou não, calóricos ou light, são tantas opções! Comemos peixe, mas há também aqueles que se enveredam por algum churrasquinho. Outros que saem para a farra, beber algumas cervas e otras cositas más. Tudo isso porque domingo é Páscoa, aquele dia, sabe, que se comemora a ressurreição de Jesus Cristo...

Pensando sobre o porquê um homem (que poderia ser uma mulher também numa visão não-machista) se proporia a morrer, ideologicamente, pela humanidade, reflito em repostas que surgiria na lata por alguns pressupostos e lógicas da Bíblia “O destino de Jesus já estava traçado nas escrituras porque ele é o filho de Deus”.

Só que pensar na proposição do livro sagrado dos cristãos me leva, particularmente, a certos questionamentos: se somos filhos de Deus de fato, por que não fazemos nenhuma ação de extrema doação ao próximo? Por que não conseguimos conter os nossos desejos para que vivamos o hábito de atitudes virtuosas? Se só Jesus consegue, isso nos dá o parecer que só Ele tem um poder divino, comprovando a sua ligação filial com o Pai celestial. Assim, precisamos esperar a ressurreição Dele para que possamos ver a encarnação de um ser de extrema bondade e compaixão.

Refletindo ainda sobre o ato de Jesus, tendo, para isso, um novo viés de concepção, creio que quando amamos muito alguém a ponto de querer o bem dela, podemos fazer autossacrifícios por vontade própria. Por sabermos que não somos perfeitos, perdoamos as imperfeições do próximo. Colocamos no lugar do outro e o entendemos tantos nas características boas e ruins, aceitamos e amamos a essência dele, a essência humana que também reside em nós. Quando universalizamos esse amor a todas as pessoas do mundo, podemos entregar a nossa vida por elas.

Mesmo não agindo como cristãos, a Semana Santa, para muitos fiéis, reacende a fé em dias melhores mesmo que eles nunca cheguem. É a busca da força na imagem de Jesus, porque não se busca a força para lutar em si mesmo, colocando todo o peso do fardo das existências na cruz que Cristo carregou (e ainda carrega). Dessa forma, se torna mais fácil a aceitação “racional” das vidas embebidas pelo vinho, sangue do filho de Deus, da graça (ou de graça?). É a entrega a uma representação de amor perfeito e universal para se livrar da consciência de todo os males concebidos no cotidiano. O egoísmo deixa tudo mais difícil para lutarmos e sermos bons com/para o próximo. Muitas vezes, caridades são feitas não para ajudarmos de fato alguém, mas para pensarmos que somos do Bem.

Não é questão de uma crença religiosa dogmática, porém acredito que todos temos uma centelha de Deus em nós. Quando mais se busca o ensinamento do "Conhece-te a ti mesmo", a gente compreende não só o que somos, mas também o ser humano. Jesus conheceu a si mesmo e buscou viver o próprio caminho de vida. Ciente de todos os problemas que enfrentaria, viveu a verdade contida Nele.

Eu procuro viver meu próprio caminho, crescer e cooperar com aqueles que já não estão presos ao ego: um pequeno grão que na solidão tem prazo curto de existência. Então, quero junto com esses poucos buscar a sabedoria em nossas essências, viver e contemplar a beleza residente no outro que se encontra em mim também. Ousar se for preciso para viver uma vida livre e digna, fazendo a nossa parte, cooperando em uma sociedade melhor a todos. Ajudar as consciências que, mesmo sabendo da árdua caminhada, desejam realmente despertar para o eterno.

Não é fácil melhorar o que somos. Todos os dias são necessários para a realização desse intento. É uma sorte certas pessoas entrarem em nossas vidas e, assim, de forma mais desprendida dos nossos egos, amar o próximo por completo, com defeitos e qualidades inerentes a qualquer ser humano, amá-lo em comunhão com o nosso ser. É uma felicidade podermos comungar um amor divino com o outro. É esse sentimento que devemos ressuscitar não somente em datas especiais.

terça-feira, 30 de março de 2010

O bem sempre triunfa mesmo no final?*

Nos debates da sociedade, o caso Nardoni gerou intensa expectativa. O público, que acompanhou o desenrolar dos fatos até o fim, comemorou a sentença de prisão do casal.

A vida de Isabella foi brutalmente interrompida, mas, com a punição dos réus, muitos diziam que “a justiça foi feita”. Assim, propagou-se a crença de que o bem acabou vencendo o mal.

Porém, mesmo com o julgamento dado por encerrado, a indignação ainda paira no ar. Por mais que o sistema judiciário, nesse caso, mostrou-se eficiente, a morte da criança é um mal que nunca será apagado na vida daqueles que a amaram.

Enquanto isso, diariamente, existem muitos outros casos à espera de solução. Várias crianças e adolescentes são condenados a morrer de fome, à prostituição, não aprendem os valores de uma educação de qualidade, convivem com a violência, mendigam por um troco para sobreviver à vida marginalizada.

Então, que atitudes éticas nós tomamos para que essa situação não continue? O que temos a declarar? Ou o silêncio da omissão vai responder por nós e triunfar?


*Texto publicado no jornal Folha de S. Paulo, em 12 de abril de 2010.

sábado, 27 de março de 2010

Vozes por vezes vazias

Vozes lá fora. Fantasias de uma noite de carnaval que não terminou. Só você não percebeu que isso não tem como me enganar. Enganar de forma tão na cara. Então, se quiser, continue com a máscara.

Vozes que por dentro não dizem nada de essencial. Doença sintomática da falta de personalidade. Sonhos com o mesmo rosto, o mesmo silicone, o mesmo corte.

Fale. Vamos lá. Faça um convite para o faz-de-conta. Faz de conta que estou em suas mãos, meus olhos são a plateia que lhe dão total atenção. Faz de conta que eu não sou sensível, logo meu coração é seu sentimento de posse. Eu lhe deixo com todas as suas ilusões egoístas. E vou embora sem, ao menos, ter ficado neste lugar.

O jogo não deu certo. No campo da oralidade, estratégias vazias funcionam com pessoas ocas. Sem joguetes, busco ser o meu melhor. Posso beijar a sua dor e trocá-la em outra substância de rima... O livro do que represento está com as páginas abertas, mas os hieróglifos são difíceis de decifrar.

domingo, 21 de março de 2010

Dois em um

Raridade poder ter esta certeza. Estou certa do porquê sinto isto por você. Não farei projeções de como as relações construídas por nós vai ficar. Independe da condicionada condição de mutabilidade dos seres e das coisas. Ouso em me aventurar no que desconheço. A profundidade me atrai a querer descobrir seus tesouros.

Você me inspira às perfeitas aspirações. Ser mulher. Ser homem. Deságua em alguma síntese de afinidade entre gêneros opostos. Seus traços não se restringem aos traços que demarcam a extensão do tangível. Compreender todas as sensações que seu ser transmite ao meu não é fácil. A harmonia exprimida se torna algo além do campo visual. E mesmo assim, um desejo em me manter passiva à contemplação.

Eu para você. Como deve ser? O mistério do que sou paira no ar. Estende-se pela musicalidade da voz, na suavidade e maciez da pele dourada. Nas curvas escorregadias, indecifráveis e imagináveis. Sentir a mente em meditação durante um espaço finito de tempo em que se encontra no paraíso. Ser irrefreavelmente guiado pelas emoções. Gozar da efemeridade da vida. A vontade irremediável a todo existir humano.

Um ponto de encontro é necessário. O início já foi dado. O fim já começou. Estaremos juntos se tivermos o mesmo pleno desejo um pelo outro. E reiniciaremos tudo de novo.