segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Contato in vitro

Toque toque
Não dava para ultrapassar a barreira de vidro.

Faltava um dente
Nem tinha a consciência da dificuldade da vida
Criança e com o espírito transparente
Vem, vem!
Vamos brincar! Vamos!
Eba!

Onde está você, pequeno príncipe?
Tô aqui, ó!
Ahá! Não tô mais
Esconde-esconde
Você não pode me ver!

Através do vidro
O menino brincava de ser
Nariz se amassava
Sorrisos nada caretas
Medo ou timidez
Pela estranha bebendo chopp de vinho
Atritavam-se na vidraça.

A risada nada contida
O olhar brilhante
Transpassava qualquer bloqueio
Sem cacos pelo chão.

Mais confiante que um adulto
O simpático projeto-de-gente
Foi embora seguindo em frente.

Quem sabe o nosso contato in vitro seja lembrado
Pelo caminho
Ainda haverá vários poetas de vidro.

Toque toque
Ele passou pela porta de vidro

Tá doido, tá doido!
Escrito por:
Kamilly Cordeiro dos Santos
Marielle Sant'Ana

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Abrigo

O remédio para o seu tédio
Você sabe onde se encontra
Me chame
Para que a febre seja alegre
Que as loucuras sejam doces travessuras

Comigo você vai ter abrigo
Agradável
O sonho se transforma
Forma a realidade

Então, me ame
Porque minha força
Você sabe onde se encontra:
É em seu amor.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Nem todo revéillon é com roupas brancas

A verdade estampada na cara com uma costura invisível. E nem tinha vocação para ser costureira. Estilista, sabia desenhar modelos. Cada sonho e o seu próprio estilo. Posso pular as cores? Vai parecer aquele poema infantil de Cecília Meireles. Todos têm a própria visão do que seja aquarela e rima com ela é fácil.

Aquela mulher preferia usar da ausência das cores. Droga, ele gostava daquela gótica alternativa. Por quê? Eu sempre treinei para ser uma boa garota. Aprendi o que me disseram que uma boa garota deveria aprender. Bons modos, centrada, nível universitário, ainda sei coser tanto com “s” quanto com “z”. Enfim, prendada. Ah, bonita também!

Eu não vou tecer mais comentários sobre aquela morceguinha. Odeio o modo de falar dela, conversando sobre assuntos que uma boa moça não falaria. Uma afronta aos bons costumes. Condenável. Sua beleza contrastante... Ok! É, tenho que admitir, tinha lá sua beleza própria. Nunca se importou com meus pensamentos. Ela, sincera como ninguém poderia ser. Consigo mesma.

Acho que a subestimei. Sim, muito. Sua característica de borboleta. Escolhia o néctar que desejasse. O néctar que fosse a sugar era inesgotável pelo jeito. Voava ao encontro do que lhe dava vida. Boatos de explorações ou de tirar proveito não pairavam. Não era uma qualquer vampira. Quase sempre segura de si e ela o seduziu corajosa, ele aceitou destemido. O meu sonho de porto seguro era o mar de outra. O amar dela. Tudo bem, dos dois, eles se merecem.

Sabe, depois dessa, eu vou fazer alguma metamorfose. Quem disse que todo revéillon precisa de uniformes brancos? Ano que vem? Cansei de postergar.

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Diariamente brasileiro

Acordei. Desci. Comi. Saí. Essa é a rotina de um trabalhador da grande metrópole. Trabalhar pra gastar a vida. Isso não quer dizer que ela é ruim. As pequenas coisas neste cotidiano a transforma em felicidades isoladas.

Acordei. O relógio não despertou, estou atrasado pra pegar o ônibus e vou ouvir poucas e boas do chefe. O chefe parece um leitão a pururuca: cabeça chata como todo bom cearense; barriga avantajada como todo bom português; e uma bunda empinada como todo mau gaúcho. Ele é uma coisa estranha mesmo. E daí? A figura disforme dele me lembra o Tiririca. Fico rindo desta coisa na minha mente maquiavélica. (risos)

Desci. Moro num barraco no alto do morro do Macaco da Bunda de Fora. Moro exatamente no centro do morro, pra ser mais exato, no centro que liga as duas bundas (para um bom entendedor, meia palavra basta). Desço todos os dias em meio a tiros e papelotes de nhacoma, é uma maravilha. Vocês pensam que estou sendo irônico? Mas nada melhor do que brincar com os problemas da vida. Fica mais interessante e, no meu caso, bem irônica mesmo. A vida como um videogame: winner ou game over? Não levando um head shot tá bom demais.

Comi. É, isso acontece de vez em quando, nem sempre tenho o que comer. Às vezes, farinha com água, às vezes, filé mignon ao molho barbecue. Depende muito da minha imaginação no dia.

Saí. Sim, saí mesmo e devo voltar só umas 11 horas da noite. Em meio a mais tiros e papelotes, só que agora com um bônus: garotas de programa também! Eita, horário nobre!

Tem gente que sente pena, tem gente que ri. Mas o problema é que tem gente que finge que não vê isso por de trás de uma mesa, dentro de um terno. Pra me conhecer, basta ir à região mais pobre da sua cidade. Sou apenas mais um trabalhador da grande metrópole, miserável, mas também a pessoa mais feliz do mundo. Por quê? Porque sou brasileiro e não desisto nunca. Diz a propaganda do governo nacional.

Eu sou feliz porque posso ver sonhos maiores do que minha própria condição.
Autores:
Guilherme Gondim
Marielle Sant'Ana

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Violeta

Não se sabe o que vem antes de nascer, muito menos o posterior a tudo isso. Era existir. Conforme se sabe das escolhas.

Alguém ligou meu corpo para esse ambiente hospitalar. Aqui estou. Aqui sou. Consciente até enquanto durar os estoques de oxigênio. Aceitar. E essas indagações existenciais que continuam. Ainda estou pulsando. Como sair desse niilismo. E esse ambiente está tão ligado ao meu corpo. Está material demais.

Desliguei. Parei com as compras de livros de auto-ajuda. Nem outro carro. Nem outro interesseiro. Compras de anestesia temporal. Parei. A matéria externa demais, externando um alguém que nada é.

Vivi desconsiderando o final. Concentração em assuntos do aqui e agora. Anulando um dos lados para a dicotomia entre mente e sentidos sensoriais não aparecer. Estado de meditação em que a mente fica vazia. Respostas me vieram após o fim. O que resta sem o valor das posses.

Violetas. Destino e criação para meu jardim. Cíclico. Momentos de fragilidade e beleza que não passa. A cor intensa. Ficou em mim. A forma, leveza e suavidade. O perfume.

Brincando com algum dom. Esta paciência de aceitar processos. Desabotoar para descansar. Desabotoar para desfrutar. Para desabrochar. Transmutando e de novo e de novo. Brindando algum dom.

Por desejar a vida, o sentido não foi perdido. Sem explicação. Independente do paraíso e do inferno lá fora, a violeta quer ser ela mesma. Violeta.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Uma boa dança

Degrau por degrau. Não gosto de precipitações bobas e tombos desnecessários. Falando assim pareço que sou calculista? Engane-se, se puder. Olho para trás para poder escrever essas palavras.

Fico dando risadas das projeções dignas de poemas românticos. De tanta idealização se torna irreal. "Belo jasmim, oh, belo jasmim, por que não está perto de mim?" Quando o objeto de desejo tiver vontade de sair da terra para virar enfeite efêmero. Vai se saber o ímpeto antinatural de uma flor. Ou de quem a admira.

Posso até ver sua dor. O seu grito não é mais profundo que meu silêncio. Se ainda julga-me insensível. Não posso mesmo acompanhar você, querida criança.

Vou contar uma história. Conheci várias pessoas. As mais diferentes e iguais possíveis. Nesse meio tempo, também estava me conhecendo.

Além do que se vê. Construí esse olhar distante em outros tempos, é verdade. Visualizar problemas, os sonhos não seriam sonhos.

Você acreditaria se eu falasse que depois de certo tempo eu encontrei o que eu era? E depois de ter me encontrado pude ver a outra parte que me faltava também? Nós sempre estamos nos buscando na realidade.

Não fale em sorte. Ela não serve quando não é bem utilizada. Oportunistas, acredito que na verdade essas pessoas ditas por sortudas sejam.

Estou aproveitando o ritmo para uma boa dança.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Nessas horas era melhor ser epicurista

Se eu começasse a falar que nunca a tinha entendido, seria mais um começo vazio sobre o desconhecido. Tipo, quando alguém fala que Deus é amor, e não compreende o divino por causa da mediocridade que se leva a vida e não sentir o amor por ninguém, nem por si mesmo.

Dizia que estava amando. Mais uma vez? Se ela tivesse me descrito de forma muito minuciosa, falando detalhe por detalhe de cada característica do novo boy, eu desligava a TV, porque Lagoa Azul pela terceira vez não dava.

Pois é, que da hora, boa sorte então! Disse isso e para quê? De um desejo de felicidade para um olhar desconcertado. Abaixa a cabeça, olha para um lado que saberia se eu estivesse no mesmo lado. De frente.

Lembro de cada memória. Sua maneira de se vê, também lembro. Lembranças guardadas, montei os pensamentos provenientes dela. Confusão. Não era isso que queria projetar. A minha visão não servia como reflexo para aquela moça que sempre admirei.

Se ela visse o que eu visse. De fora é mais fácil formular análises. Era só não ter medo. Se tudo desse errado, bem... Se tudo desse certo, amém!

O temor antecipado causava dor antes mesmo de algo posterior acontecer.