segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Vida morna



Sonho porque tenho sono
de todo o viver morno
que ainda não existe pleno...

Sonhar é a contemplação interior
no mais profundo concretizar
do que realmente somos feitos.



quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Notas intocáveis



Nada há de concertar
as batidas desconcertantes
do meu coração...

... Lá Lá Si Lá...





segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Por caminho torto


Separada de quem tanto gosto
Sinto esta solidão astigmática
Para entender nem de longe, nem de perto

Quando meu coração irá se sentir satisfeito
Se essa distância persistente fica
Criando fantasias irreais em meu peito?

Eu nem sei mais qual é seu rosto
Deixo a lembrança estática
Esquecendo o de resto feito

Mas já não me importo
Jogo com as estatísticas
A sorte por algum caminho torto.


x X x X x


Música de inspiração de hoje: Chão de Giz - Zé Ramalho

"Eu desço dessa solidão. Espalho coisas sobre um chão de giz... No mais, estou indo embora." 


sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Nascer para isso


Em um sonho você pegou seu passaporte
E como um fugitivo escapou daquele dia
Encontro com data e local de autópsia
Nenhum testamento para o que em vida colhi
A realidade me atesta o que não escolhi
Enquanto homens sacrificam a si mesmos
e buscam a verdade à esmo
Enquanto o EU está perdido
em egos gélidos
corações fingidos de amor
e corpos sem calor
Vivemos outro postergar de paraíso
É neste ponto que me despeço da morte
Respirar enquanto a vida de fato não existe
Fabricando a razão de nascer para isso


segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Perfume do que restou das meras memórias


Nenhum de seus tesouros pode ser guardado
Tudo o que você tem é demasiado pesado
Lembrar a sua vida é viver a sua morte
Viver sua ausência é esvaziar este instante

Então, em tom amadeirado, perfumo o papel
Viva-voz em branco a perfurar seu som num poema
As correntes que correm para me prender neste velho dilema
Destruo antes com um pincel as nuvens claras do céu

x X x X x

Inspiração musical para hoje...
The Piano Guys - A Thousand Years (cover piano e violoncelo)


domingo, 29 de setembro de 2013

Entre existência e linguagem


Linhas negras em folhas brancas
Palavras cintilantes em linhas negras
Parênteses invisíveis para ortografias que insistem simbolicamente em desbotar o brilho das cores não ditas
E tudo retorna ao obscuro pois a curva de Deus entorta absurdamente a retidão das faíscas dos meus pensamentos que se arriscam no fogo velado entre existência e linguagem
Escrevendo errado por linhas mais incertas ainda
para alguém palpitar a certidão da vida.

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

Confessionário particular


Estudante do último ano do Ensino Médio. Vestibular. Concorrência. 17 anos. Ansiedade. Muita ansiedade. Pressão. Cobrança. Eficácia. Poderia ter sido estas as causas para aquilo que deveria se configurar somente em um colapso emocional momentâneo.

“Ana Cláudia, você desconfia como tenha sido sua origem a este mundo?”, irrompia uma única vez a pergunta de Tereza à sua filha em meio ao barulho e tempo quente do trânsito em horário de pique, o que fazia aquele diálogo se perder na vertigem do tempo. Agora sim tal indagação materna desconcertante fazia inimaginavelmente sentido.

Não se poderia ter uma cena de histeria neste lugar sob determinadas circunstâncias. A verdade não sabia como se autoproclamar. Mas você sabe, por acaso, quem era aquele homem com poucos fios de cabelo que a jovem tinha acabado de dar um abraço no estacionamento do aeroporto? Bom, ele era seu pai.

Naquela noite de julho, época do caos aéreo pelo Brasil, Ana Cláudia descobria, então, que o pai que tivera antes de abrir os olhos para este hilário mundo, que viu seus primeiros passos, suas primeiras palavras, seu desenvolvimento como ser humano durante a vida não era o que a fizeram acreditar como na fotografia do porta-retrato da família. Era aquele desconhecido gentil, na verdade, seu pai biológico.

O que pôde fazer a moça diante daquela verdade que era melhor nunca ter sido revelada? ¨Não!”, única palavra gritada que conseguiu dizer diante do reflexo que acreditava como real se perder para que existisse uma falsa representação de família tradicionalista por excelência. Para que existisse, enfim, a verdade em verdadeiro ângulo. Bipolaridade.


sábado, 21 de setembro de 2013

Segundos



À primeira vista, eu não quis entrar nesta fábula
Eu que passo por tantas ruelas desconhecidas
Eu que não passo de memórias distorcidas

Venho primeiramente agora rasgar o verbo
Cuspir três pontos finais em uma confusa caligrafia
A verdade não é sonho para o fim do túnel...

Tanta luz a nos ofuscar...
Nesta nossa intensidade e ternura
Minutos a se concretizarem em anacrônicos segundos

Este é o tempo que cega as trevas em meu peito
Eu que não sei recompensar o seu amor
feito singelos flocos de neve a cairem

Aquilo que nos pareceu inesquecível
Aquilo que só poderá ser uma promessa feliz
Sou sua segunda vez




quinta-feira, 15 de agosto de 2013

re-cor-tes

Eu não importo com os demônios que querem transferir para mim. Um cristão que não exorciza suas próprias trevas deveria retornar para o inferno antes de tirar a trave do irmão. Com um vermelho vibrando por renascimento, as cascas da minha aura azul foram totalmente rompidas. Sou escarlate. 

Com toda a dor do mundo que daria para sentir o sangue em respingos de batida. Criador, por consequência de seu sêmen, você me renegou quando nasci. Então, por minha causa, renego você. Meu pai, te amarei para sempre. E vamos reprogramar esse jogo dos deuses.

"Então eu coloco minha fé em algo desconhecido. Estou vivendo à base de sussurros doces e vazios. Mas estou cansada de esperar sem nada para me apegar. Estou vivendo à base de sussurros doces e vazios."

"Deitada em minha cama novamente e eu choro porque você não está aqui. Chorando em minha mente novamente e eu sei que não está claro."

"Nas profundezas do meu sono, meus olhos tremem quando fechados. O deus dos sonhos sorri elegantemente e questiona a morte, enquanto as cadeias da causalidade controlando o espaço e tempo começam a se emaranhar. É um programa de fantasia dado pelos deuses."

"A vida é um jogo, que é uma sobrevivência, isso mesmo! Como começar? Tempo e Espaço, e uma encruzilhada através de um portão! Aonde você vai? Comece! Vamos marcar para trás todas as dores e vamos nascer novamente. Eu quero ver as estrelas com você sem um milagre. Isso não é um beco sem saída."

Treino o excesso de transparência que há em mim para não aparecer aos outros já que não é fácil para eles suportarem meus pensamentos expressos nas palavras. Tornando-me cada vez mais opaca com tantas camadas de verdades reunidas pelo cultivo solitário no solo da profundidade para não machucar quem toca os espinhos que dão acesso às pétalas. Guardamos paraísos por incapacidade daqueles de adentrar-se em nossos templos sagrados. O que seria um inferno para quem não tem a força de suportar nem a própria verdade. Imagine a alheia... Cortar certas ervas daninhas e colher flores para aumentar a reserva de gentileza.   







quarta-feira, 14 de agosto de 2013

Neurolinguística



Mamãe. Primeira palavra que falei. Pai. Fatídico 13 de julho. Desaprendi da língua. Eu te amo. Nunca consegui pronunciar.

Eu Não Sei Dizer Te Amo by Frejat on Grooveshark

terça-feira, 13 de agosto de 2013

Por hora



Por favor. Por hora. 1 dose de Ypióca. É. Preocupa não. Seu moço. Depois peço mais. Engolir forçosamente essas verdades cinicamente parentais tá fácil não. Hoje sou ressaca. Ressaqueada. Vomitada no sanatório. Sanitário logo ali. O tsunami na ponta da língua. Por algum lado a merda nas minhas entranhas tem que sair. Né. Oralmente. Saca. Se eu falo... Oralmente vou cortar essa de psicólogo. Tá muito caro. Ah. Mais outra dose. Por favor.
#######

Uma música para finalizar por agora? Saideira - Pitty.

http://www.youtube.com/watch?v=XYjJwscAy2Q


Esperando orvalho



Aceitei o valor mais alto
Acertei a altitude mais elevada
Aquele leilão não era para ser feito
Muita gente na levada

Um preço alto se pagou
Anjos com asas cortadas
Tudo acabou em pranto
Eram chuvas e geadas

A máscara ainda paira em meu rosto
Eram chuvas e geadas
O que mantinha-se um tanto torto
Continuava a farsa de uma face

Não poderia mais aceitar
o valor mais alto
na altitude mais elevada
e ver ambas e ambos
com as asas cortadas 

Um pranto
que não era chuva
Era só geada
esperando orvalho.





domingo, 11 de agosto de 2013

-me-quer


Bem-me-quer. Mal-me-quer. Nem-me-quer. Bem-me-quer. E nessas pétalas tiradas por falta de buquê, cortei os fios de cabelo que bem queriam qualquer afeto que só os amantes poderiam entender. Bem entrelaçados um ao outro entre seus dedos carinhosos. Cabelos negros como a noite e iluminados como o Sol do meio-dia. Agora desfiados por meia-verdades. Queria uma mata virgem. Agora as meias-verdades viraram verdades de meias trocadas. Eu tenho medo do que me tornei porque você apenas -me-quer. Nada mais que um -me-quer. Eu, um objeto de diversão? Tenha medo do que me tornei por você apenas me querer.


sábado, 10 de agosto de 2013

Cada pessoa que viveu em minha vida...



Uma ferida. É o que sou. Sangro pessoas do jeito que são. Distância. Entre o aceitar. O abandonar. Impassível de transformação. Calo-me. Calo que me dói. Você. Ruído orgulhoso. Fechado em concha. Sem discussão. Abro-me em martelo até sua gema virar joia. Cristalizada. Antes que você perceba. Destruiu quem lhe desenhou com amor. Indiferença. É o que se pode esperar de uma pedra. Sem valor. Para lágrimas que nunca existirão. Deixam-se as matérias brutas a um deusdará. Suas ideias de nobres diamantes. Utopias de grafites. Sua procura por caras joias. Caros objetos de valor. Antes decidi minha forma no mundo. Quebrei esse ciclo do Carbono. É essa. Cara humana. Cara humanidade. Feição. Desconstruída. Face que se constrói por cada pessoa que viveu em minha vida deixar sua marca em mim.

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

Revisando a própria vida



Minha vida de trás para frente. Câmera lenta está quebrada. Ritmo normal. Estou refletindo. Estes reflexos me cegam a boca. Não tenho muito o que comentar. Perdi o que mais amava sem nem me despedir dignamente como filha. E agora, Marielle? Interrogaria uma espécie de Drummond dentro de mim. O quê fazer? Preciso desconectar estas batidas para seguir em frente. Estas batidas que me lembram da sua última respiração que não pude sequer fazer nada por inspirar ouvintes em ondas de rádio... A verdade da minha vida está daqui para frente. Batidas que restarão o que realmente sou. E não quero repetir as mesmas frequências de mar de outrora. O que realmente importa são as ondas que pulsam em Amor...Luz...Amor...Verdade...Luz...Vida. Vida. Vida. Dê-me um beijo para recomeçar.


Cartas inefáveis






cartas nunca escritas
por falta de tradução do que pulso
por faltar traduzir o que nunca significaria em palavras 
palavras prendem-me como forma de significância
os silêncios ultrapassam 
Eu silente
leria silêncios
leria cartas de um fantasma aprisionado 
em pensamentos passados a limpo 
em vinho branco adormecido por mais de décadas atrás 
a qualidade ébria faz adocicar a vida em sonho bom





quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Vibrante



O susto iniciou o perecimento da própria morte.

Assombro com versos. Assombro com diversas diversidades do ser reverso.
Arrisco neste existir pela eternidade impalpável até como meu próprio rosto nesta foto.
Buscando algo que nem sei o que é
mas posso jurar que já está inscrito em mim.
As vidas são como maçãs.
Almas que buscam neste turbilhão de incessantes despertares 
o amor na essência de um lar escarlate.
Susto vibrante. Vibrante. Vida. Vibrante.


quinta-feira, 13 de junho de 2013

Velhos-jovens



Um velho-jovem sentiu o coração cantarolar pela segunda vez. Mais forte que o calor que se propaga pelos motores dos carros. O amor com aquela face apaixonante, desenhando lindas batidas nas entrelinhas. Do outro lado da avenida via-se um casal de pombos preso para um ensaio fotográfico. Eles até que poderiam voar. E, mesmo assim, caminharam para sobreviver de migalhas jogadas no chão pelos expectadores. Em plena tarde fresca de outono. Uma velha-jovem também sentiu o coração cantarolar pela segunda vez. Aqueles anjos estavam, enfim, livres para não mais encenar a própria vida. 


 x X x

O texto continua em extensão musical para você, querido(a) leitor(a), abstrair mais inspirações nesta vida passageira que, para mim, só começa a ter sentido se o amor revelar sua face mais verdadeira e bela simplesmente.


segunda-feira, 13 de maio de 2013

Lentes

       

Manhã de 23 de abril. Alguma sala da EMAC – UFG. O que fiz? Basicamente fotografar. Mas cada ‘clique’ por trás da lente de uma máquina objetiva perante o objeto da Fotografia é também agir, interagir com o outro que lhe afeta. Posso dizer que o fotógrafo, sua ação em cena, é também o ato de performar; sua performance dentro do espetáculo do cotidiano é o de fotografar, ou seja, sua arte lhe concede o papel de performer de si mesmo. Então, com esta angulação, elenco 3 atos durante a performance daquele dia que me marcaram: agachar, subir e refletir.

Agachar durante uma cena de performance é divertido e estranho quando a gente se acostuma a ficar parado durante os atos e esperar, como se fôssemos meros espectadores, que algo interessante apareça aos nossos olhos cansados de ver. Mas quando agachei para tirar fotos foi como se um novo mundo se apresentasse a mim: o mundo da igualdade. Isto porque fiquei na mesma altura de alguns performers e me permitiu vê-los de forma mais humana, mais próxima, como se eles realmente estivessem próximos de mim e eles conversassem através de seus gestos coisas que eu deveria guardar na memória dos meus olhos. É como se fosse algum diálogo e não uma apreciação distante de algum artista. O fotógrafo quando se agacha ganha humildade e, com esta humildade, pode ver dimensões singulares e ganhar uma sabedoria de olhar – porque ao abaixar o tom dos olhos, novas nuances aparecem. Mas agachar também é chato porque literalmente as pernas ficam doloridas. Então, ficar o tempo todo agachado, ficar o tempo todo ‘humilde’ perante a arte em frente aos seus olhos também dói, é cansativo. Por isso, o bom fotógrafo sabe a hora de dizer para os seus olhos que um ângulo/objeto a ser fotografado “já deu” e, assim, sai do lugar cômodo que arranjou e procura outro lugar para ver com outros olhos.

Subir literalmente em cima de uma mesa foi assustador e instigante. O susto, acho que já se deve suspeitar, é o medo de cair, e o motivo instigador é o fato de querer mesmo assim continuar lá em cima para ver com precisão o grupo como um todo, sem que, no entanto, alguém me visse lá ou sentisse minha presença. Todos agiam livremente porque não se tinha a noção de alguém observando. É aquela coisa de ver todos em tamanhos menores e, mesmo assim, ver a amplitude de suas ações. Tudo isso faz parte de algo surpreendente e instigante porque, de certa forma, atinge aquele antigo imaginário do que seja Deus: um ser no alto de suas nuvens, em um paraíso cheio de luz, que tudo vê mesmo o oculto. São muitas divagações obscuras, pois, como Shakespeare já enunciava, “há mais coisas entre o céu e a terra do que sonha a nossa vã filosofia”. Senti-me uma pequena parte daquele monte de gente porque mesmo olhando eu também estava lá. Um grão no meio de um copo de arroz.

E o terceiro ato que me marcou durante a performance foi o ato de refletir minha imagem, meu reflexo no vidro da porta que mostrava também todos os que atuavam em uma mesma fotografia. É aquela história de que o que a gente vê faz parte do reflexo do que nós somos. Talvez ninguém chegou a perceber estas nuances de histórias que narrei nesta folha mesmo estando no mesmo tempo e local. Porque o que percebi subjetivamente são reflexos de imagens que construí e construo a cada olhar. Dessa forma, a realidade que nós enxergamos como real vai além das ações que vemos dos outros ou de como essas ações nos afetam: é uma questão de como observamos a tudo a isso, que tipo de lente e mecanismos psíquicos colocamos em jogo para alcançar a nossa visão. As imagens que saltam aos meus olhos são simplesmente emanações do meu ser.

terça-feira, 23 de abril de 2013

Literatura no Eixão - E eu ganhando livro! Super adoro!


Bom, era um sábado quente em Goiânia. Quente e ensolarado, perfeito para um clube. Mas eu, com este engajamento que tenho para tudo que gosto, carreguei meu namorado para o evento Literatura no Eixo. Por que no Eixo? Leitor, a resposta é simples: isto é um trocadilho para se referir também que a manifestação artística seria levada para os usuários do transporte público de Goiânia, especificamente o Eixo (que é uma linha de ônibus que corta a cidade e é uma das vias mais utilizadas pelos passageiros de Gyn). Embora eu utilize com certa frequência o transporte público (até meu irmão mais novo sabe dirigir e eu não! rs), meu namorado já nem sabia mais o que era andar de ônibus desde seu último ano no Ensino Médio, porém, mesmo assim, aceitamos o desafio, quero dizer, o convite. 

Pois pense: pegar ônibus, em pleno sábado, cá entre nós, ah, é muito chato. Enfrentar empurra-empurra.  Super lotação. Motorista sem sensibilidade, quem dirá educação, para dirigir com cuidado, já que está carregando seres humanos e não a mãe dele. Galera que vende mil e uma coisas no ônibus e passa esfregando e espremido por entre os passageiros. Fora aqueles que vão logo pegar ônibus para pregar a palavra (sou católica, assim, minha fé é muito grande de que lugar de culto deve ser em espaço particular, até porque se fosse alguém de outra religião (ou totalmente) estranha à sua e viesse lhe catequizar em pleno ônibus lotado, em movimento, quente, abafado, seria no mínimo desagradável). Vender indulgências. Vender lote no céu. Vender "salvação". A gente ter que comprar fé para enfrentar tudo isso. Pedir esmola para os remédios (jogo na cara de alguns que o Estado oferece isso de graça nas Secretarias responsáveis, a pessoa falta adoecer de tanta vergonha). Pedir esmola com cara e corpo de quem está forte para trabalhar, se brincar até melhor do que eu. Nossa, quando enfrento tudo isso até penso que não sou gente, e tenho que me "animalizar" para entrar neste espaço, porque a maioria se comporta como cavalo para entrar no ônibus, fora a marcação de território, porque se bobear até sentam literalmente na gente. 

Mas, para contrapor tudo isso, através de uma idealização do jovem e engajado poeta goiano Kaio Bruno Dias, é que começou o Literatura no Eixo: oferecendo Arte para gente que, muitas vezes, nem visualiza a perspectiva disso. Gente esquecida pelos poderes públicos, que mais se preocupam em utilizar o dinheiro público para patrocinar o show do Paul McCartney no sertão de Goiás. E a cultura goiana local e seus espaços públicos onde é que ficam? O espaço tão democrático, point do público jovem e afins, que era o Martim Cererê, por exemplo, está morrendo, se já não está morto, fechado durante 1 ano. E os shows, os espetáculos teatrais, os eventos que promovem múltiplos olhares da cultura (porque Goiás não é terra somente do sertanejo, embora só se venda essa imagem para fora) não têm espaço, não tem local. Mesmo tendo o público. 

Assim, quando fui marcar presença no Literatura no Eixo, eu e meu namorado ganhamos um livro cada um, na faixa, de forma gratuita e sem que alguém pedisse nada em troca. Fora as apresentações, onde até pude improvisar uma leitura teatralizada do poema feito pelo poeta e também integrante do movimento Walacy Neto. Por isso, principalmente quando se pode contribuir com iniciativas tão inovadoras e louváveis, neste caso levar a Arte para todos no Eixão (usuários do transporte público de Goiânia), gosto ainda mais da Literatura. É a emoção que ela pode nos proporcionar tanto quanto poetas e quanto público de todos nós.

Para sentir mais um pouco do movimento, acesse o link abaixo:
Literatura no Eixão - Matéria TBC News, 22/04/2013


quinta-feira, 18 de abril de 2013

Conversas DaMatta

Aluna passa em 2º lugar em mestrado com projeto sobre Valeska Popozuda
Projeto discute ideia de que funk seria o último grito do feminismo                 -   http://migre.me/eaKoZ

Com essa manchete, eu me fiz o auto-convite de dialogar sobre essa notícia e com o que eu vi ao vivo, a cores e na minha presença ontem, quarta-feira, 17 de abril, Goiânia. Roberto da Matta.


Para quem ainda não sabe, Roberto DaMatta é brasileiro  de Niterói, cidade do Rio de Janeiro, e nasceu em 29 de julho de 1936. Atualmente ocupa a cátedra Reverendo Edmund P. Joyce. C.S.C., de Antropologia da Universidade de Notre Dame e é também professor titular licenciado sem vencimentos do Departamento de Antropologia da Universidade Federal Fluminense. Quanto a sua titulação acadêmica, para sermos breve, ele é mestre e Ph.D pela Universidade de Harvard. Também participa e realiza inúmeras conferências em todos os grandes centros de pesquisa e ensino de Antropologia Social da América, da Europa e da Ásia. Se tratando de lugares em que foi conferencista, DaMatta já passou em: Universidade de São Paulo, Campinas, Rio de Janeiro, Harvard, Yale, Princeton, Johns Hopkins, Florida-Gainesville, Pittsburgh, New York, Columbia, Washington, Chicago, Illinois, Michigan-Ann Arbor, Cambridge, Londres, Oxford, Lima, Buenos Aires, Cairo, Berlim, Uttrech, Stockolmo, Tóquio, Seul, Oslo, ...,  e, para a nossa alegria, também em Goiânia, no evento Café de Ideias.

Para o padrão acadêmico que temos observado atualmente no Brasil, onde muitos academicistas se propõe a conversar somente com ele mesmo e entre seus iguais acadêmicos, esse breve currículo de DaMatta, intelectual de reconhecimento internacional e um dos poucos grandes nomes da intelectualidade brasileira, já estaria de bom tamanho. Porém, este doutor vai além dessa limitação acadêmica: ele tem uma formação verdadeiramente intelectual.

O que eu quero dizer com isso? Quero dizer que ele pensa de forma sincera e autêntica, com um olhar sensível, crítico, reflexivo e, sobretudo, atento aos fenômenos sociais e às transformações do mundo, o que envolve cultura, política, cotidiano, comportamento de nós, seres humanos inseridos neste ‘entre-lugar’ de contextos, historicidade material e imaterial. Assim, DaMatta tem muito mais que o suficiente para o exercício intelectual: a sensibilidade para compreender a verdade universal do que é o ser humano, a essência que nos constitui. Assim, além de várias obras em livros, fundamentais para se pensar a realidade social e sociológica do Brasil, como Carnavais, Malandros e Heróis: Para uma Sociologia do Dilema Brasileiro; O que faz o brasil, Brasil?; Casa e a Rua: Espaço, Cidadania, Mulher e Morte no Brasil, dentre outros, Roberto DaMatta tem centenas de artigos, publicados semanalmente nos jornais O Globo e Estado de S. Paulo.


Alguns críticos e jornalistas alegaram que o bom-humor do professor DaMatta foi o ponto alto da palestra. Mas também como não rir do lugar caótico que se encontra a ética, a moral, as práticas, as estruturas físicas e intelectuais do Brasil? Ao ouvir as perspicazes conversas de DaMatta, nós – o público –  sentíamos em verdadeiro processo catártico. É tanta tragédia neste Brasilis que DaMatta agia como o nosso psicólogo social e a gente ria das incoerências íntimas da sociedade e de nós mesmos. Nossa confissão ativa por meio do riso mostrava o que somos e o que não queremos ser: trágicos. O riso, pelo jeito, é outro jeitinho do povo brasileiro ultrapassar e conviver com a visão da adversidade e poder coexistir nela.

Em uma parte da palestra, o intelectual alfinetou a academia pela questão dela querer ser tão acadêmica que deixa de se propor a reflexão social da própria sociedade. E ele falou assim: “Um país que não tem política não tem sangue. Uma academia que fica fechada só nela mesma também não tem sangue. Eu não aceito ser um intelectual que só se direcione a um público acadêmico. Nestes moldes, eu não aceito ser um intelectual da academia”. Então, para contrapor a ignorância do povo que concorda em desvalorizar a cultura dos morros cariocas, do futebol, do Sertão, do funk, do samba, do negro, do branco, do índio, da multietnia, por exemplo, é que se faz necessário entender de forma epistemológica o que é mesmo o Brasil, o que nos constitui como brasileiros, como nação.


Por isso, o Brasil tem cara de Valeska Popozuda também, ou será que a gente vai ainda negar esse outro quando vemos as mulheres (irmã, tia, amiga, colega de trabalho, colegial, universitária, ou qualquer outra forma de contato com este gênero feminino) que adotam este estilo de conduta, roupa, cultura e lógico, música, do que hoje é comum se chamar “piriguete”? Como o hit que fez Valeska se popularizar na mídia brasileira, o refrão que ela canta ainda hoje é o grito consciente ou inconsciente de liberdade para muitas mulheres quando vão sair para qualquer balada, seja rock/jazz/blues: “De, de sainha. / Agora eu sou solteira e ninguém vai me segurar. / Daquele jeito!”. Então, por que temos que negar o que faz parte da cultura brasileira?

É a partir de um intelectual desta estirpe que nós, universitários, nos sentimos animados e motivados a continuar estudando, fazer pós-graduação e tudo o mais. Não pela razão de ostentação de títulos, o que torna tal prática vazia e rasa, mas para buscar, produzir, pesquisar o mais profundo conhecimento. E, ao buscar também a minha voz, quero de fato estudar e escrever tão apaixonadamente como o DaMatta relatou que é sua experiência com a leitura e a escrita. Isso para mim seria o princípio do suficiente na minha vida...

Escrever para descrever com reflexão o que somos. Ler para apreciar o que somos. DaMatta é contra e eu também NÃO ACEITO aquilo que vive sem ter sangue, porque um conhecimento assim e que continua a existir só pode ser configurado em: conhecimento de zumbis. E eu NÃO ACEITO isso. Aquilo que se proponha a me tornar antiquada e quadrada, lugar de um exercício acadêmico autista: estou fora. Mudança cultural é o meu foco. E não me importo em continuar estudando, escrevendo, noticiando, engajando. Mesmo que os resultados demorem a aparecer, o pouco que eu conseguir vai ser lucro! Tenho consciência disso, em um Brasil onde o povo mal sabe interpretar o que estou escrevendo agora.


Eu também NÃO ACEITO toda essa cultura da corrupção no Brasil. NÃO ACEITO a desculpa de que somos assim por causa dos portugueses, por causa da escravatura, por causa dos índios e etc, que acaba nos acomodando neste estado atual de declínio ético, desigualdade, precariedade na infraestrutura e tantas outras mazelas. Como Roberto DaMatta afirmou quando questionei ele, o Brasil tem que DIZER NÃO ao que nos faz desiguais, antiéticos, antidemocráticos e retrógrados. E o que é esse DIZER NÃO? É um de nossos jeitos para a gente – nós, brasileiros – SUPERAR o que não queremos que nos represente. DIZER NÃO é posicionamento político. O Brasil precisa DIZER NÃO!


Ps.: Para finalizar este texto, deixo para você de presente a música na voz do nosso brasileiríssimo Ney Matogrosso, e escrita pelo multiartista Arnaldo Antunes: “Somos o que somos. Somos o que somos. INCLASSIFICÁVEIS.”