sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Poesia madura


Ela procurou seu amor quando criança
Ouviu “Eu te amo muito, querida!”
Saiu correndo toda aflita e sem graça
Sem deixar recado ou pegada

Inconformada, foi buscar novas formas
Queria romper a imagem de perfeitinha
Amadurecer e perder medidas
Encontrar-se nos mais variados sentidos
Perder-se nos sentidos mais virados
Com corpo e conteúdo para se ver conformada
Apesar da estrutura velha demais para seus inventos
Apesar dos volumes métricos que sua música soa
Sempre isso a pesar...
Presa às suas linhas, soltou o fio da meada

Pular corda
Gerar eletricidade
Ligar a luz das estrelas com a divisão dos átomos
Ler a iluminada mão cruzando com a vida, a mente e o amor
Voltou ao verso inicial

Ela procurou seu amor quando criança
Ouviu “Você é foda, senhorita!”
Pediu perdão pela palavra
O vermelho na língua

Então, o poeta intitula
Ela é Poesia madura
Sustenta a gravidade
Flutuante deste poema.

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Pólen mágico


Quero só seu bem
Que mal isso tem?
Você, indefesa
Pequena princesa
Saberá lutar?
Sem se machucar?
No mundo tem seres
Nada encantadores.

Eu quero voar
Volte minhas asas
Por favor, fada
O mundo pequeno
Quer novo lugar
As mudas donzelas
São tão enfadadas
Quero já outro reino.

Pegue o pólen mágico
Na Terra se lance
Isto é poder
Vê se voa, vai, vai!
Em todo céu branco
Sim, arcoire-se!
Da cor que quiser
Ame mais e mais!

Marcando o silêncio
O tempo mudado
Princesa cantou
A felicidade
O próprio feitiço
Por si colocado
Rainha desvirou
Virou juventude.

sábado, 25 de dezembro de 2010

Amor indefinível


Eu procurei o significado
Um dicionário desconheceu o sentido

Tentei descrever narrativamente minha emoção
Entrelinhas bancam as subentendidas dessa expressão

Amor é difícil de compreender com o verbo amar
Mas tu, naturalmente, ensina-me a verbalizar
Os inícios que me complementam com teu olhar.



Ps.: Poema feito para você, amor, meu amado namorado! Sua companhia é, imensuravelmente, um presente valioso que a vida me oferece! Beijos, Luiz! =)

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Retrato-falado


Seguro seu existir em cada mão
Com garra, elas se abraçam
Cruzam-se na Estação da Luz
Choram meio-dia em olhos nus

Ouço o que acende seu silêncio
Velado pelos sons do círio
Indecifrável pelo termo da palavra no ar
Não teremos tempo para encontrar

Quando um dia for Sol completo
Riremos de tudo isso, eu suspeito
O retrato-falado me diz que é a sua face
Desconheço você, a memória apagou-se.




x X x X x
Complemento por trás do suplemento de hoje: Eis parte do que me deu inspiração para continuar os rabiscos existentes previamente no caderno.

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Cidadão indigente factual


Noite de quinta-feira. Céu parcialmente nublado. Sem risco de precipitações. Ora aparecia a Lua, ora desaparecia. Ora surgia a loira, ora sumia. Os dois irmãos e companheiros, ainda bem lúcidos, brindavam com boemia o fato central das boas novas.

Antônio Augusto, jornalista jovem e audacioso, ainda não estava acreditando: 24 anos e 11 meses, sua idade naquele tempo, para chegar ao cargo de editor. Tudo bem, o jornal não era o mais famoso do país, mas circulava a cada dia em todos os setores da sociedade brasileira para ser o número 1 em vendagem. Venda e qualidade nem sempre são pesos da mesma moeda, depende muito da visão e ambição do empreendedor. Por hora, o comunicador comemorava a promoção de chopp, apesar de não estar no ponto ideal de temperatura.

Cruzou a rua, carregando sua arte de latinhas, alguns diriam lixo, outros de sustentabilidade. Luxo, palavra esdrúxula. O homem de veste simples, o rosto marcado pelas agruras da cidade sem territoriedade, fazia do chão apropriação temporal dos pés nômades em pleno século XXI.

O cidadão, se é que poderia chamá-lo assim, dirigia-se sorridente entre as mesas, vendendo suas obras, vivendo entre esmolas. Chegou à mesa dos festivos irmãos, pelo visto, de potenciais clientes. Dinheiro os dois mostravam que tinham para gastar com bebida em plena quinta-feira.

Fui com a cara desse indigente, o jornalista assim interpretava o sujeito em pé a sua frente. Tentou pechinchar o produto, achou divertido o cinzeiro feito de lata de refrigerante sabor coca. E quando mais barganhava, outros valores começavam a surgir. Seus olhos vislumbravam alguns possíveis prêmios de jornalismo por meio daquele personagem marginalizado. O mundo paga e consome bad news.

Já instalado na mesa, o cidadão das ruas se sentia lisonjeado com tamanha oferta de atenção cedida à sua simplória pessoa. Antônio Augusto anotava na mente a riqueza de experiências daquele pobre senhor. Ouvia suas origens, seus destinos e desatinos. Soltava algumas palavras em inglês, cantava em espanhol hermoso.

O cinzeiro, minutos depois, foi presenteado ao pechincheiro para surpresa do mesmo. Como esse homem poderia se abdicar do pouco que tem com tanta alegria? Não lhe entrava na cabeça o desapego material desse cidadão. É loucura demais, tenho que questioná-lo o porquê.

– Ei, moço! Eu gostei do cinzeiro, mas eu quero pagar por ele. Por que você vai me dá-lo se precisa de dinheiro para sobreviver?

– Ah, dinheiro é o de menos, amigo! Latinha se vê aos montes nas ruas, dá para catar fácil. Até tenho o suficiente para pagar minha caninha. Eu não preciso mais do que Deus me deu para contar meus causos para quem quiser escutar e tocar a vida. O bom já nasce pronto.

O jornalista, às 9 e 18 da noite, em uma das mesas do bar frequentado por personalidades intelectualizadas, acadêmicos pós-modernos, pseudos cults em geral, ficou impressionado com a sabedoria desprendida por aquele indivíduo de sorriso fácil, apesar das circunstâncias. Ia de encontro, de encontro mesmo, tipo ônibus que colide com muro de escola e deixa 6 crianças mortas, com toda as suas leituras de mundo adquiridas pelos seus 24 anos e 11 meses. Aquele cidadão deixava insustentáveis as ideias difundidas por Sartre. Onde está o tornar-se a ser? Não existia o tornar-se, aquele mestre da atualidade sem nome, inominável, era o próprio tornado, e contraditoriamente, sem fúria.

Antônio se sentiu impotente. Estendeu a mão para segurar o presente do artista urbano. Para não perder a compostura, com humildade e modesta atitude, o rapaz ofereceu, em troca, uma caipirinha por sua conta. O senhor aceitou de bom grado para brinde de todos.

Anos se passaram. O editor nunca mais vira o homem que cruzou a rua, carregando sua arte de latinhas. Na mesa de redação, o cinzeiro jamais usado. A história nunca apagada pela periodicidade dos fatos.

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

dado sino dada sina dada

sina goga gagá van gogh

assina guga lady gaga

o valor de uma arte


não é a medalha

dada da humana vaidade

onde algum vencedor

cria ao dobrar o sino sobre si

se for o amor por ti

é vão da navalha

assassina a humanidade

assina redutor

a sina status e só esse

(sim) (sim) (sim)



Imagem: Barão Owl (aliado do Jiraiya, o Incrível Ninja)

x X x X x
Não sabe quem é o Barão Owl ainda??? O ninja-cristão-cruzado-templário-bolado com cara de sino?

Então, veja as imagens filmadas por esta câmera escondida que mostra uma conversa informal dele com o sábio mestre ninja Tetsuzan (interpretado por um ninja de verdade considerado um dos maiores mestres ninjas do mundo e médico neurologista [já não bastasse ser um mestre ninja, o veinho é médico neurologista... cara f*********] Masaaki Hatsumi). São de arrepiar!!!!

http://www.youtube.com/watch?v=U7lGaAdVT3s

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Primavera à flor da pele


“Não busque a felicidade fora, mas sim dentro de você,
caso contrário nunca a encontrará.”
Epiteto

A janela aberta moldurando o jardim para enfeite do concreto cercado de muros. Os jornais anunciavam a primavera. Divulgavam a criação de flores transgênicas mais perfumadas, mais suaves ao toque, mais coloridas e menos efêmeras. O anúncio noticioso deixou João inspirado a consumir ainda mais a produção dessa estação mais imaginária do que sazonal.

Percebida uma leve mudança no tempo, João aparentava não estar tão fechado assim, Dália puxou assunto com o colega de trabalho. Fazer as horas correrem mais rápido. Conhecer o desconhecido, seu vizinho, mesmo quarteirão e rua, há mais de uma década. Sentia-se um pouco antiga por ter pensado isso, apesar de não ter trincado, melhor dizendo, não ter ainda 30 anos de idade.

- E aí, João? Tudo bom?

- Olá, Dália. Na mesma. A primavera começou, mas nem sei por que eu estou falando isso com você.

Um sorriso exalava-se suavemente da boca de João. Seria sinal de timidez? Quem se importa, o importante para Dália era adubar o assunto e ver o que iria florescer depois. Perder tempo, sem problema, alguns minutos tinham que ser mortos para o cumprimento das cinco horas diárias de serviço. O contracheque pagava o equivalente a seis.

- Huuum... O que tem a primavera? É uma estação linda, né? Momento de amor, dos enamorados...

Dália esboçava uma expressão sonhadora, estava pensando no noivo. Brilho forte nos olhos, algo lindo de se ver.

- Acho que primavera é primavera e nada demais. Amor é sentimento fingido pela realidade humana. Todos sabem disso, mas preferem se iludir.

- Vai ver você tem fé e não quer acreditar que a tenha para nunca mais amar de novo. Já ouvi falar sobre isso não sei aonde. Normal.

Anormal para João. Mas faltava ele explicar o quanto sentia a solidão abraçá-lo dia e noite. Um inverno de espera longa, longa demais, eterna. A rosa esmagada por passes de tango. Faz parte da dança. Suar pelos poros em vez dos olhos. Regras sóbrias de conduta de um dançarino técnico, sem paixão.

- É, Dália, no fim tudo passa! Inclusive nosso expediente. Até amanhã!

- Até amanhã, João!

Por isso, Yasmim mudou-se do bairro... Deve ser chato demais ter que suportar esse ânimo opaco e pessimista do João. Não há casamento que sobreviva, mas ele já tinha que ter superado há anos esse ocorrido. Ficar cultivando as flores da ex-esposa para sonhar com o aroma dela pela casa. A felicidade depositada num passado murcho... Momentaneamente, os pensamentos de Dália foram podados. Ela percebeu que ainda não tinha saído do escritório.


Imagem: Delicate Duo - Brandon Hoover