
Naquela época, a tribo franja no olho apareceu. Os cabelos lisos e pretos nem que fosse a base de química, ferro quente e outras atrocidades capilares. Mulher e homem confundiam-se em número, grau e, principalmente, em gênero. Ambiguidade, androginia, bissexualidade, homossexualidade, parecia moda da estação. Beijos entre miguxas para demonstrar o carinho sentido uma pelas outras. Os miguxos também logicamente. Trocas de afeto travestidas, às vezes, por aceitação grupal. Com peças de outras tribos, montavam seu próprio avatar, mescla de gótico, All Star, patricinha, listras de marinheiro e meigas caveiras. Nada de novo, crianças gostam também de impressionar os pais, quem sabe ter atenção deles, quando a fase infantil não foi superada pelo descaso dos seus genitores. Converteram as horas reservadas para o abraço em dinheiro para seus filhos.
Por que a tristeza depressiva nesses corações feitos de simbologias como esta: S2? Borrar o lápis nos olhos é sensibilidade. Cara, não dá para ver a minha dor na superfície da cara? E todas as tribos dispersas, nesse momento propício, uniram-se para acabar com o
core dos emos. Chamar uns caras de viadinhos ou vergonha do
rock é algo bem
cool, sociável e aceitável pelo meio, até o
punk, considerado pelos conservadores
undergrounds como uma escória musical, pode ter seu dia de Queen rebaixando um ser que no máximo vai chorar passivamente pela violência a qual não sabe se defender. É bom para um ego que precisa se autoafirmar, já que a sociedade como um todo renega um som que é taxado como satânico, fora a periculosidade das drogas e sexo livre. É pauleira mesmo. O preconceito coletivo e inconsciente.

Nesses dias de perigo, encontrava-se a nipo-descendente Elena. Gostava das suas raízes culturais hibridadas por quase um século com a brasileira e conectada com os processos de globalização e consumo. O espírito ávido por novidade a fazia se encantar com o mundo em cada silêncio explorado.
Um sonho estranho sempre cutucava seu cérebro. Odiava as músicas românticas por serem distantes do seu sentir, a inalcançável perfeição não idealizada em suas pretensões pessoais. Um som tranquilo, suave e relaxante lhe dava o sono da bela entediada. Sua angústia traduzida em nenhum idioma. O que ela desejava, mas não se materializava logo? Foi então que Gerard Way entrou em cena.

Assistindo a MTV na casa de sua avó, ela viu e ouviu o que há tanto tempo vinha sonhando. Será que esse vocalista é do Good Charlotte? A coincidência parou no cabelo preto e liso. A sonoridade com progressividade elétrica e fluída, o vocal relativamente limpo, sem gritarias agudas ou graves, cheio de emoção e expressividade do espírito que se rasga em verdade e sofrimento atraiu, irremediavelmente, a telespectadora. Algumas lágrimas saíram do controle.

Helena, essa foi a primeira música que conheceu da banda My Chemical Romance. E antes de traduzir todas as letras do inglês para o português, se reconheceu na descrença das pílulas milagrosas do catolicismo para continuar vivendo e convivendo harmonicamente com as uniões materialísticas de Barbies e Kens. Gostou da crítica social feita a um sistema pouco sensível em valorizar o indivíduo quanto humano, a não ser que esse pague por isso. Das memórias inesquecíveis e para sempre lembradas até o fim ser incinerado. Restando os fantasmas do passado registrados em fotografias. Sem medo de chegar até o fundo do precipício se preciso fosse para buscar o Eu em si.

Assumir que gostava dessa banda, tarefa nada fácil. Os rótulos carimbavam o rosto do primeiro que se autodeclarasse fã de My Chemical. Emo! Emo! Ah, você é mulher... Ema! Ema! O que é ser
emotional, Elena perguntava para Jean que a taxava assim, sem mais nem menos.
– Você saca, emo é aquele que tem cabelo preto e liso, franja na cara, gosta de My Chemical. Você é emo, tá vendo?
– Eu estou vendo que você é um tapado que mal sabe do que está falando. Acha que o mundo é feito de estereótipos, então, vamos lá! E esse brinquinho, você é
gay por acaso?
Elena riu da sátira irônica que falou aceita pelo seu colega de classe como uma verdade aparente para ser desmentida. Ele que a todo custo queria chamar atenção das garotas para sua virilidade heterossexual demonstrada no alargador de orelha. O resultado é secundário.
– Para com isso, eu sou muito macho! Tanto que convido você para tomar umas cervas no bar ali da esquina depois que acabar a aula por minha conta. Você é uma garota bonita, gosto dos seus olhos puxadinhos. Sabe que eu tava de zuação naquela hora, vamos?
– Obrigada pelo convite, mas não preciso do seu dinheiro para você se sentir um homem, ainda ouvir sertanejo em boteco, tendo que aceitar suas drogas lícitas e massivas. Para você me beijar depois somente? Estou seletiva o suficiente com meus 16 anos. Aceite isso como um fora!

A garota olhava para si, uma falta de esperança desesperadora. Estava sozinha com suas introspecções. A superficialidade das pessoas não a acolhia. Sua vontade de caminhar o mundo com as próprias pernas podada pela violência exposta constantemente na televisão. O remédio para suportar o peso do vazio era compartilhar, de ouvido, a dor interpretada por Way.

4 anos se passaram até o lançamento do último álbum. Durante este tempo, a fã adquiriu muito mais do que uma coleção fonográfica completa para furtiva demonstração de poder aquisitivo não-pirateado. Ela descobriu a luz de suas perguntas encarada nos olhos das verdades universais. Enxugou as lágrimas provocadas pela falsidade humana. A idade de sua face pouco lhe importava. A idiotice dos adolescentes visível dos 8 aos 80 anos. A vida com prazo de validade, o palco preparado para as diversões existenciais. Escrever é preciso, viver não é preciso.
A gravidade terrestre não significava tanto. O conflito subjetivo superado. Os valores de antes permaneciam em transformação. O coração à prova de balas para buscar os sentidos humanos imperecíveis diante da nova geração nada, os vícios da compulsiva sociedade de consumo e a massa acrítica escrava das sensações da mídia. Proteção com armas em punho, porque o amor conclamado em letras legíveis está sem ação no papel. A internet tampouco virtualizou virtuosa e veloz a compreensão entre os humanos globalizados. Elena deixou para trás a criança de ontem. Que bom ouvir que não estava sozinha nessa empreitada. E continuou a traçar seu caminho.